A festa de Santos Reis

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

Ao pé da Serra da Canastra, cortada pelas águas cristalinas do córrego Bateia, situava-se a fazenda Alvorada, toda formada em pastos, entrecortados por imensas plantações de café. Na casa principal moravam Cristiano, a mulher e Ana, sua única filha. Da varanda descortinava-se uma paisagem natural, própria da região, tendo mais ao fundo a visão da estrada que os levava ao arraial, aos domingos para as missas e festas e nos outros dias para os negócios e serviços. Era lá, na varanda, que Cristiano gostava de ficar nas horas de sossego, pensando na vida. Ultimamente preocupava-se com a organização da festa de Santos Reis, realizada anualmente no dia seis de janeiro, da qual seria o festeiro responsável. A tradição de se homenagear os três Reis Magos vinha de seus antepassados e desde criança Cristiano sonhava com este dia. O momento chegara e Ana, com seus lindos quinze anos, seria a madrinha da companhia.

Os preparativos para a festa tomavam a atenção de todos. Amigas e vizinhas da dona da casa preparavam as vestimentas dos foliões, todas em cetim de cores vivas, enfeitadas com fitas e lenços coloridos. Chapéus de cartolina, em forma de cones e máscaras para os ‘palhaços’ eram feitos com o maior capricho. O estandarte com as figuras dos Três Reis Magos era o que merecia maior atenção. Teria que ser o mais enfeitado, pois iria à frente, conduzido por Ana, para grande orgulho de seus pais.

O dia tão esperado finalmente chegara. Depois de percorrer várias fazendas das proximidades, sendo recebida nas casas com muito fervor pelos moradores, a Folia de Reis, companhia formada por músicos instrumentistas, cantores e devotos, chegou ao arraial. Lá foi recebida pelos convidados e assistentes para uma apresentação de cantos , danças e orações, representando a visita dos Reis ao Menino Jesus, em uma simbologia de humildade e reconhecimento a este novo Rei. Entre o espocar de fogos o povo saudava os Santos com palmas e vivas. Cristiano não cabia em si de contentamento e todos riam e conversavam alegremente. A barraca do leilão estava repleta de prendas. Os mais disputados eram os cartuchos, enfeitados com papel de seda picotado e flores de crepom, cheios de doces secos. As mesas estavam cobertas de frangos assados e bebidas. Os mais jovens, como Ana, reuniam-se próximos ao palco onde uma dupla sertaneja se apresentava.

Chegou o final da festa. A mulher de Cristiano pergunta pela filha. Ninguém sabia onde ela estava. Começaram a procurá-la por todos os lugares. Perguntaram aos amigos, mas não conseguiram encontrá-la. A tensão instalou-se em Cristiano. Adentrou ao mato escuro que rodeava a praça, gritando, já desesperado, o nome da filha. Inútil. Vários grupos saíram com lanternas e tochas intensificando as buscas, mas nada acharam. Eram altas horas e, aos poucos, todos foram se retirando. Ana desaparecera. A mãe chorava e o desespero dominou o pai. A tristeza reinava nesta família que fora tão feliz até pouco tempo atrás.

De novo, na varanda de sua casa, sentado em seu lugar preferido, Cristiano relembra a última festa de Santos Reis que organizou. Seu olhar se fixa nos morros, cobertos de verde e agradecidos pela chuva abundante que caíra e seu pensamento divaga livre.

Ouve, bem perto, uma voz querida e familiar:

Vovô, quero ver a vaquinha...

]Ana e o marido foram passar o final do ano com ele e pretendiam ficar até o Dia de Reis.

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