Ciúmes da bola

Por: Clésio Dante da Silveira

Dia de clássico era um martírio para Porfírio. Ele driblava o churrasquinho de domingo, a mulher tentava exasperá-lo, atrasando de propósito o almoço. Só lá pelas dez da manhã, ela levantou-se. Ameaçou ir à missa, mas, percebendo a cara azeda do marido, desistiu. Ele disfarçava a pressa, mas daí a meia hora não agüentou:

- ‘Môr... será que chove mais tarde? maroto, só para mostrar que à tarde a bola rolava. E que jogo! Amanhecera com a camisa do time, comprara os ingressos no meio da semana.

Ela nem se dignou responder, só resmungou. Porfírio não insistiu e, mudando o esquema, rolou com o filho no tapete verde da sala.

Dia de jogo era assim mesmo, um dia de muitas lutas, a primeira delas dentro de casa. Ou melhor, dentro de seu próprio espírito. Desde que conhecera Vera, vinham travando um duelo interminável, devido ao seu apego ao futebol, sua constância na TV e nos campos em jogos do seu time. Quando ele dizia pela milionésima vez que a sua paixão pela bola era uma coisa à parte, que não tinha nada a ver com o amor que sentia por ela, a mulher rebatia com um chutaço infalível, morteiro como uma cruzada na área, dizendo que se ele não gostava mais da bola do que dela, por que ele sabia todas as datas dos jogos de cor, sabia as datas de todos os títulos de seu time e nunca se lembrava sequer da data do seu casamento? Ou do aniversário dela, então?

Ela sonhava que estava tudo bem, fingia ignorar os preparativos, os telefonemas dele para os amigos boleiros, companheiros de cerveja e arquibancada. Ele, por sua vez, ignorava os arroubos dela, as táticas para tentar demovê-lo, não de uma jogada só, mas aos poucos, de sua paixão pelo futebol, com a intenção de conseguir, nem que fosse aos quarenta e cinco do segundo tempo, uma vitória qualquer sobre a rival - a bola. Ela, às vezes, nem pedia uma vitória. Queria somente um gol, um gol em impedimento que fosse, que já seria o bastante para animá-la em sua disputa. Mas ele era um fanático, um torcedor irascível, desses capazes de morrer na fila em busca do seu ingresso, de invadir o gramado na conquista de um título, de fazer qualquer sacrifício para acompanhar o seu time, mas totalmente incapaz de agradar uma só vez à mulher.

Findo o almoço, ele calçou tênis confortáveis, pegou os ingressos, um boné com o escudo do clube e avisou à esposa que já ia. A felicidade esperava lá fora, lá longe, no estádio ensolarado de domingo. A multidão, o grito, os fogos, o suor, o apito, o pênalti, as vaias, o gol, as redes balançando, as equipes se enfrentando com todo amor pela camisa e dedicação à torcida, tudo era uma festa imbatível, incapaz de caber nas palavras, maior que o universo, maior do que tudo, até do que...

É lembrou-se maior que tudo, só menor do que o maldito ciúme que a Vera tem da bendita gorduchinha...

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