Os feios se parecem

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Tonico é meu vizinho. Deitado à sombra de aposentadoria polpuda, ele sabe levar a vida. Sua única responsabilidade é fazer pequenos serviços para a mulher - lavar vitrôs, levar o saco de lixo para a rua, e cuidar dos dois cachorrinhos que estão sempre à janela.

Os cãezinhos são peludos, engraçadinhos. Venho planejando afanar um deles e, se ainda não o fiz, foi em consideração à esposa do Tonico. Temo que meu amigo, despojado do bicho de estimação, tenha um troço qualquer, que se sinta mal, e a mulher leve um susto.

Com ocupações tão limitadas, meu vizinho preenche algumas manhãs, fofocando no salão do cabeleireiro Japa. Quando o cheiro de comida o arrasta para casa, certamente não sabe por que sua orelha está queimando, nem desconfia que é por causa da língua do dono do estabelecimento.

Apesar de levar vida tranquila, vira e mexe, e o Tonico surge no centro de acontecimentos esdrúxulos. Semana passada, foi assim.

Contou-me ele que tirava um cochilo, quando seu sossego foi interrompido. Era o telefone.

- Alô.

- Quem está falando?

- É o Tonico.

- Quem?

- É o Tonico. Você quer falar com quem?

- Ô, Tonico, está tudo bem por aí?

- Tá, tá tudo bem. Mas quem está falando?

- É o Quim.

- Ah.. sei... o que você deseja?

- Nada não, só liguei pra ver se está tudo nos conformes.

- Tá sim, tá tudo na paz de Deus.

- Nenhuma novidade mesmo?

- Não, não.É a mesma vidinha de sempre.

- Então, tá. Um abração pra você, Tonico. E vida longa.

Que conversa mais sem pé nem cabeça essa do Quim, pensava ao recolocar o fone no gancho. Mas não teve tempo para reflexões outras. Foi a conta de desligar, e o telefone tocou novamente. Era o Melquíades com uma conversa furada igual à do Quim. Tonico reafirmou muitas vezes que tudo estava bem, que a sua saúde estava ótima, que não havia novidades.

Depois do Melquíades, foi a vez do Dinho, do Tomás, do Marquinho, do Nicola, do Régis, do Júnior, da dona Bida, da dona Terezinha, do Carneiro, do Zé Pepim... até que não agüentou mais. Desligou o telefone, ligou o televisor.

A esposa desligou seu telefone celular. Não agüentava mais explicar que o Tonico estava em casa, que estava bem de saúde, que a vida continuava como sempre, que os cachorros continuavam latindo para os pedestres, que tudo continuava como dantes no quartel ... dos diabos, pensou.

Desligados os aparelhos, o casal se entreolhava, cada qual querendo entender, cada qual mais abismado.

Foi aí que tocou a campaninha, e dona Zanoca entrou casa adentro, muito irritada. Suas palavras e seu nervosismo acabaram por jogar luz na confusão.

A mulher estava vindo do Velório São Vicente, e estava, de fato, indignada. Avisaram-lhe que o Tonico havia morrido, ela deixara sem entregar um monte de encomendas, fechara a casa, pegara táxi e se mandara para o velório. Reclamava prejuízos: não vendera a cocada e ainda gastara com a corrida de carro.

- Ao menos o dinheiro do táxi você precisa me devolver. Onde se viu você fazer isso... O susto que eu levei... Você precisa me pagar o táxi.

O próprio Tonico me conta, constrangido, o lamentável engano, as confusões ocorridas.

- Até grupo de orações fizeram...

Mas, por fim, ficou tudo esclarecido. Alguém, passando pelo velório, viu um defunto que era a cara do Tonico. Não teve dúvida, telefonou para os amigos, comunicando a passagem do Tonico.

- Aí, foi virando uma corrente... Agora vem gente bater aqui na porta, querendo receber até corrida de táxi, dinheiro gasto com caixa de vela... Que que você acha?

Não acho nada, na hora, pois não quero constranger mais o meu amigo e vizinho, não quero abalar um relacionamento de anos.

Agora, aqui pra nós: o defunto devia ser feio, muito feio.

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