Fantástica Elna

Por: Mauro Ferreira

A máquina de costura Elna é fabricada por uma empresa suíça situada em Genebra, desde o ano de 1934. Famosa por ser uma das primeiras máquinas de costura portáteis, seu projeto e design foram inovadores, até pela sua cor verde que rompeu a tradição das máquinas pretas (como da Singer), que lhe valeu o apelido de gafanhoto.

Outro detalhe importante é que ela vinha dentro de uma maleta de metal e a caixa de acessórios também se encaixava entre o braço da máquina, tornando-a compacta quando não estivesse em uso. Seu design inovador a levou a ter um lugar no MoMA Museu de Arte Moderna de Nova Iorque. Mas não estou aqui para fazer propaganda ou falar das maravilhas da Elna, que as costureiras mais antigas da Franca do Imperador louvavam, havia até um pequeno clube de admiradoras da máquina.

Ocorre que, em meados dos anos 1960, minha mãe ganhou do meu pai uma Elna. Naqueles tempos remotos, não havia assistência técnica em qualquer lugar. Da Elna, então, só em São Paulo. Embora robustas, algum defeito acontecia. Em 1972, estudando arquitetura e vivendo em São Paulo, recebi a incumbência materna de levar a famosa Elna, que era tratada como um bibelô, para um conserto. Eu morava no bairro de Santa Cecília, perto da Santa Casa paulistana. A oficina era no centro velho da cidade.

Duro, eu não tinha dinheiro para táxi. Fui a pé. O design inovador da máquina era puro metal, nada de plástico. O peso da coisa era inimaginável. Fui arrastando aquela caixa metálica verde pelas ruas do velho centro paulistano até dar bolha nas mãos finas de quem só desenhava e passava longe de uma enxada. Felizmente, deu tudo certo, os caras consertaram e despacharam pela Cometa para minha mãe, que ficou toda contente com o retorno incólume de sua Elna.

Anos depois, outro defeito acometeu a Elna. Já não existia mais a oficina autorizada do centro. Havia outra, lá para os lados de Vila Carrão, distante bairro da zona leste. Meu irmão, num dia que tinha que ir a São Paulo de caminhonete, levou o gafanhoto para o conserto. Minha mãe ligava interurbano toda semana para o sujeito, perguntando sobre o conserto, o cara enrolava dizendo que faltava apenas chegar uma peça da Suíça. Isso durou até o dia que meu irmão retornou a São Paulo e foi até a oficina, exigindo a máquina de volta.

O cara disse que tinha consertado, ligou-a e de fato funcionou. Mesmo desconfiado da seriedade da coisa, meu irmão trouxe a Elna de volta. Minha mãe aguardava ansiosa e logo foi experimentar o resultado fazendo roupas para os netos. Surpresa: a Elna funcionava, mas ao contrário, parece que o rolamento havia sido invertido. Bem que meu irmão desconfiou da peça que vinha da Suíça. Provavelmente era da Suíça mesmo, mas da rua Suíça, de alguma fundição de fundo de quintal no Tremembé.

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