A senha

Por: Mauro Ferreira

A luta antimanicomial ainda era uma coisa distante naqueles tempos. Depressões pós-parto eram confundidas com outras doenças mentais e geravam internações em grandes hospitais psiquiátricos, a política de saúde recomendava a internação quase prisional dos doentes.

Foi neste tempo que o jovem artista, recém-formado e ansioso por desenvolver trabalhos com os conhecimentos adquiridos na faculdade, recebeu a incumbência de criar a capa e as ilustrações de um livro do tio, médico psiquiatra numa importante instituição hospitalar do Triângulo Mineiro. Após vários telefonemas do tio descrevendo o que desejava para o livro, desenhou caprichosamente vários esboços em preto e branco e em cores, para discutir se era isso mesmo que o autor queria. Juntou tudo numa pasta e saiu num sacolejante ônibus pela interlândia paulista, conheceu as vibrantes rodoviárias de Jeriquara, Buritizal e Igarapava, perto das barrancas do rio Grande.

Quando chegou, já era hora do almoço, foi direto para a casa dos tios, onde almoçou. Após a religiosa sesta vespertina, o tio disse que teria que retornar ao hospital, onde ele poderia apresentar e discutir as ilustrações. Quando chegaram, ele com a pasta debaixo do braço, foram recepcionados por um diligente enfermeiro que comunicou ao tio médico uma emergência que ele teria que atender, um surto psicótico numa repartição pública no centro da cidade, motivada por assédio de um político a suas funcionárias. O tio apenas virou-se para ele e disse: “o Jorginho vai te mostrar o hospital e a ala dos passistas, depois a gente se fala.” Subiu no carro e saiu para atender a tal emergência.

O jovem artista, com seus desenhos a tiracolo, ficou com o Jorginho, o enfermeiro. Simpático, solícito, “vamos dar uma volta para você conhecer o hospital?”. E assim foram caminhar, pavilhão após pavilhão, o refeitório, a sala de jogos, a fisioterapia, os consultórios (“aqui fica o consultório do doutor”). O tempo foi passando, a tarde foi virando noite e nada do tio retornar. Inquieto, ele reclamou com o Jorginho, que apenas disse que ele voltaria logo. E tome corredor e jardim e campo de futebol e piscina e casa de máquinas e lavanderia.

Até que o jovem artista se encheu e perguntou se poderia chamar um táxi para retornar à casa do tio. O Jorginho, enigmático, foi logo dizendo que isso não seria possível e começou com uma conversa esquisita. Quando o jovem artista viu chegarem por perto dois “armários” disfarçados de enfermeiros, percebeu que seria internado à força. Na hora apavorou-se, começou a dizer que não era maluco. Jorginho limitou-se a responder: “todos aqui dizem o mesmo”. Por sorte apareceu o tio, esbaforido. Quando chegou a sua casa sem o sobrinho, a tia deu-lhe a maior dura, tinha esquecido o moleque no hospital. E, pior, por distração, tinha falado ao Jorginho para mostrar a “ala dos passistas”. Era a senha para internar o desavisado, mesmo que à força.

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