Silêncios eloquentes

Por: Maria Luiza Salomão

A Coleção dos Mitos de Jazz, encontrada nas bancas, iniciou com Glenn Miller, que me marcou alegremente através do meu irmão, que mimetizava os arranjos da orquestra, usando a sua voz para reproduzir os instrumentos.

Ouço e leio, repetidamente, a história de um músico, a semana toda. Há detalhes que fazem uma vida. Por exemplo, a amizade tempestuosa de David Brubeck e o saxofonista Paul Desmond, intrigante: como os dois conseguiram sustentá-la, em íntima relação, tanto tempo? Na Música parceiros transcendentes, apesar da rivalidade na disputa de quem lidera quem em uma banda. (Paul Desmond aparece como um ser nada confiável).

Duke Ellington, pianista talentoso, arranjador e compositor escreveu mais de 1.500 temas, que se tornaram padrões no jazz - considerado o maior compositor do século XX. A orquestra era o seu maior instrumento. A música, para ele, sempre em primeiro lugar. Perto de morrer, com câncer, ainda e sempre na estrada, lhe perguntaram - por que não se aposentava? E ele: “aposentar-me do quê?”. Morreu na estrada.

Chet Baker: “parece-me que a maioria das pessoa só se impressiona com 3 coisas a rapidez com que se pode tocar, a altura que se pode atingir e o volume do som produzido. Agora, mais experiente, vejo que provavelmente menos de 2% do público sabe realmente ouvir.” Ele inventou, com seu trompete, um novo estilo de tocar e cantar, com uma voz pequena, afinadíssima, e, segundo os grandes, dono de uma intuição impecável. A voz macia incomodou o pai, violento e alcoólatra, que lhe impôs o trombone, mas, por ser grande demais para o garotinho talentoso, foi trocado por um trompete. Sem um dente da frente, perdido em briga de rua, Chet poderia ter prejudicado a habilidade de tocar o trompete, mas enfatizou os timbres graves (não usava a prótese que substituía o dente). Nunca sorria nas fotos.

A Música - deles todos - é maior do que a pequenez (ou a destrutividade) humana que possamos ler sobre suas vidas: retratos de fraquezas, compulsões, rivalidades, melancolias. Os músicos se acabaram no uso de drogas, na promiscuidade sexual, em doenças e acidentes. Mas a Música que eles perseguiram a vida toda, imortal, soa límpida, acima das suas Dores, das suas Mortes.

O CD que ouvi, repetidamente na última semana, foi o de Miles Davis, trompetista, e ele se destacava pelos seus silêncios eloquentes durante a apresentação. Ouço, inúmeras vezes, “Flamenco sketches” (cenas ou esboços do flamengo), e sinto o silêncio se fazer em mim. Como se adentrasse uma gruta e presenciasse o nascer de uma forma de diálogo entre seres que não se entendem, mas ensaiam uma aproximação. A Música me aproxima de toda a humanidade, em marés e ressacas.

Quando a Música maiúscula cria um ritmo forte, verdadeiro, envolvente, parece inaugurar um O de Origem para nossa espécie, parecendo tecer uma linhagem infinita de linhas sonoras, trançadas em uma comum Linha do Tempo. Um movimento ondulante que cruza os ares agrupando corpos e mentes, de diferentes raças, gêneros, idades. O músico é veículo frágil, misteriosamente eleito, do Transcendente. Disse Chet Baker: “se não estou tocando, estou deprimido, melancólico, quieto. Mas, se eu estou tocando, isso parece mudar.”

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