Copas do Mundo - I

Por: Everton de Paula

Quando procuro me lembrar de algum fato ocorrido num determinado momento de minha vida, tenho vários recursos como referência para me levar ao ponto a ser evocado: datas de casamento de pessoas próximas, nascimento de sobrinhos, algum grande acidente natural que abalou o mundo, uma notável e inesquecível leitura, um aprendizado imorredouro, a morte de alguém famoso ou conhecido... Mas os grandes marcos mesmo têm sido as copas do mundo, o que se explica pela minha intensa paixão pelo futebol.

Se quero me situar no tempo passado, quando era aluno da antiga segunda série primária, vem-me imediatamente à memória a Copa do Mundo de 1958, realizada na Suécia. Pronto, a partir daí sei muito bem sobre os fatos marcantes que me ocorreram antes e depois dessa copa. Vejamos apenas alguns deles.

Copa de 1958. Brasil campeão do mundo na Suécia. Acompanhamos os jogos pelo rádio, em transmissões que às vezes “sumiam” nas ondas hertzianas. Calças curtas, brincadeiras em fundos de quintal, mangueiras, bem-te-vis, primeira comunhão, inauguração do cine Avenida; o ciclista boliviano Zuluaga em Franca e suas pedaladas por mais de 120 horas ininterruptas. Sabonete Lifeboy, Samdu, campo de aviação, jogo de botão (cujo time de lentes de relógio ainda guardo comigo), bicicletas Gorila, programa de auditório na PRB 5, Rádio Clube Hertz de Franca, os jogos da Francana no estádio do Coronel Nhô Chico, o goleiro Dudízio, Repórter Esso, Rádio Nacional do Rio, laticínios Jussara sendo metralhados pelos defensores de consumo de leite cru em vez de pasteurizado, a primeira namorada... O sucesso musical era Ana Maria, de Juca Chaves. Ah, e Marcianita, interpretado por Sérgio Murilo. Você se lembra da letra: “Esperada marcianita... Tenho tanto te esperado, mas nos anos 70 felizes seremos os dois...”? Anos 70! Mãos católi
cas levaram-me a ser coroinha de Frei Salvador, na paróquia de Nossa Senhora das Graças. Missa em latim: ‘Dominus vobiscum... Et cum spirito tuo”... E o final sempre esperado, joelhos ardendo “Ite, missa est!”

Copa de 1962. Brasil bi-campeão do mundo no Chile. Transmissão ainda pelo rádio. Equipe imbatível do Santos cujo ataque mortal era formado por Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. Ginásio no IETC, primeiras lições de piano com Lúcia Gissi Ceraso e depois Lúcia Garcetti. Primeiras redações publicadas num jornalzinho da escola, o basquete fantástico de Franca, as piscinas do Clube dos Bagres aos sábados e domingos, matinês de Carnaval na AEC: “Mulher casada que anda sozinha, é andorinha, é andorinha...”. Primeira Romizeta em Franca cuja proprietária era a cronista social Augusta, mãe do Higininho; os primeiros aparelhos de televisão na cidade (era status notável da família que ostentasse uma antena de televisão sobre o telhado da casa), a vontade de o pai da gente comprar um carro nacional Dauphine ou Gordine; Volks já era pedir demais... Cineminha na AEC e a aflição de arranjar uma namorada...

Copa de 1966. Brasil perde a copa na Inglaterra. Transmissão pelo rádio. Agora, sim: Beatles, bailes de formatura inesquecíveis no salão de tacos encerados da AEC, danças de rosto colado, orquestras de Sylvio Mazzuca e Laércio de Franca, brincadeiras dançantes, longas filas na primeira sessão aos domingos no São Luiz e no Odeon, a tabacaria de esquina, a Quibelândia. Colegial (clássico) no IETC tendo por professores Palermo, Antonieta Barine, Chafi Felipe, Irene Motta Caleiro, dona Wanda de Sociologia, Nicanor Xavier, dona Meire Spessoto de Filosofia... Nosso basquete não sei quantas vezes campeão paulista. Pilotando a primeira Lambretta, rabo-de-galo e bala Pipper, fanfarras disputando o primeiro lugar na cidade nos desfiles de Sete de Setembro. O Tiro de Guerra se aproximando, turma da Jovem Guarda na TV Record, o Fino da Bossa com Elis Regina... O dilema: namoradas versus espinhas na face...

Copa de 1970. Brasil tri-campeão mundial de futebol no México, a primeira transmissão de uma Copa direta pela TV... E em cores. Algo fantástico! A ditadura militar enchendo o saco de todo mundo e as celas e porões de esbravejadores. E tome porrada: amigos e conhecidos presos pela polícia civil, artigos censurados nos jornais, o Estadão publicando nos espaços censurados receitas de bolo. A primeira Francal no estádio do Palmeirinhas, curso de Letras na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. O estruturalismo russo em lugar de se aprofundar o conteúdo das obras estudadas, coisas do Governo, que tirou História, Filosofia, Sociologia das diretrizes curriculares e nos enfiou goela abaixo disciplinas ufanistas, fantasiosas, inúteis. O Pasquim. Leitura de Os sertões e primeiras participações das semanas euclidianas em São José do Rio Pardo. Paixão pela literatura! Tolstoi! Gosto pela música clássica, o período das grandes amizades que perduram até hoje. Serviço de revisor no Comércio da Franca, época de Alfredo H
enrique Costa: linotipia a chumbo derretido, cujo cheiro misturava-se, madrugada adentro, com o de churrasco que vinha do Bar Gasparine, de esquina, ao lado da Santa Casa... Madrugadas intermináveis... Paixões corrosivas... Vigor pleno da juventude, ausência de medo, avidez pela aventura...

Copa de 1974. Brasil perdeu-a na Alemanha. Viagem de estudos à França e à Bélgica. Morte de Agnelinho Morato e início de aulas de Português no Educandário Pestalozzi. Participação no Grupão da Franca, com novas e inesquecíveis amizades: Mazo, Ulisses, Jairo, Wanira, Lurdinha, Zezão, Paulo, Erlindo... Festivais de MPB e a glória dos primeiros lugares, das primeiras composições musicais. Admiração por Thomaz Novelino. Um feito: consegui conquistar a “guria mais linda da cidade”, segundo opinião da dr.ª Rosinha Khun: Elisabete Benelli, que se tornaria, mais tarde, minha esposa. Participação nos Festivais de Inverno de Campos do Jordão e a experiência de ser regido pelo maestro Eleazar de Carvalho. Professor ganhava muito bem: somente com as aulas matutinas no Pestalozzi comprei um Corcel zero quilômetro, branquinho, na antiga Venasa, ao lado da Catedral.

(Continua no próximo sábado).

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras