Tempos da UESF

Por: Mauro Ferreira

Tempos atrás, o Paulinho Vilhena mostrou-me uma impecável carteirinha de estudante da União dos Secundaristas Francanos, a UESF, que ele ainda guarda até hoje. Lembrei-me da importância da UESF (que não tem nada a ver com a de hoje, dos sambistas), eram tempos de protesto aqueles, em meados dos anos 60. A ditadura militar ainda estava em seu início, a longa noite de terror e a mordaça do AI-5 ainda não haviam chegado, alguns protestos esparsos ainda eram possíveis. A UESF, ao mesmo tempo em que vivia da emissão de carteirinhas para os estudantes pagarem meia no cinema, a principal diversão dos jovens na cidade onde a TV ainda era exclusividade dos ricos, também organizava protestos na porta do cinema quando ocorriam aumentos das entradas.

No IETC, além de tudo, havia o rigor do diretor Júlio D’Elia, preocupado com a disciplina. Serventes inspecionavam a entrada para verificar se o uniforme estava completo, até as meias eram motivo para devolver as crianças de volta para casa. As pequenas transgressões, como fumar Hollywood sem filtro nos banheiros, eram vigiadas de perto, mas cada vez mais recorrentes e impossíveis de controlar. Os ventos das grandes passeatas contra a ditadura, a agitação, a indignação surda ainda existiam, e os jovens queriam mudanças que o Maio de 1968 iria simbolizar. O rock e as guitarras elétricas avançavam, os costumes e a moda mudavam cada vez mais rapidamente, as meninas de minissaia e os meninos cabeludos começavam a se impor para contrariedade do diretor e dos conservadores.

Surpresa tivemos quando chegamos um dia no IETC e vimos as escadarias pichadas com a frase “Abaixo o Império Juliano”. Os serventes passaram o dia tentando limpar aquilo, mas só conseguiam chamar mais a atenção para a pichação. Quem teria feito aquilo? Nunca soube, mas sempre admirei a audácia e coragem do autor. Não esqueço também o desfile idealizado pelo Pedroca para comemorar os 25 anos do IETC, em 1966. Um funcionário da secretaria, também inventor, criou uma pulseira iluminada e o desfile dos alunos dentro da noite com aquelas luzinhas acendendo e apagando com o movimento dos braços em marcha é uma das coisas mais fantásticas que resistem na minha imaginação daqueles tempos, como num filme de Fellini.

Mas o sinal definitivo de que tudo havia mudado foi quando descobriram uma fraude nas notas. Alguns alunos conseguiram entrar à noite na secretaria e alterar as notas das provas bimestrais. Foi um escândalo tão grande quanto o da Geisy na Uniban. Descoberta a fraude, não sei como, os alunos responsáveis foram punidos exemplarmente. O acontecido abriu nossos olhos para o futuro, atirando-nos no rosto que a inocência e a ingenuidade daqueles tempos haviam acabado definitivamente. Logo veio o AI-5 e a ditadura escancarada dos milicos. Depois surgiu o humor do Pasquim para esculhambar a ditadura, mas esta é outra estória.

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