O outro prestes

Por: Mauro Ferreira

O Antônio Vieira era um dos poucos comunistas assumidos de Franca nos anos 50, quando o Partido Comunista Brasileiro vivia na clandestinidade. Muito ligado ao também comunista Bicalho, que era o contador e amigo do meu pai (trabalhavam juntos no banco Hipotecário), o Vieira costumava dar carona para os dois e meus irmãos iam a tiracolo, até que o Gonzaga virou para ele e disse: “podemos passear na sua ximbica?” Seu carro era um velho e inacreditável Ford 29 ou parecido, que ele usava para suas andanças no trabalho, ligado ao abastecimento de água da cidade e pelo trabalho partidário a favor do proletariado e contra o imperialismo ianque.

Na adolescência, eu gostava de escutar o Bicalho, quando ele vinha visitar meu pai depois de ser transferido para BH, pouco antes do golpe militar de 64. Seu forte sotaque belorizontino cheio de erres e esses acariocados eram engraçados para meus ouvidos caipiras, especialmente quando falava que “o general Mark Clark é o testa de ferro da Sears Roebuck”. Sempre me recomendava livros sobre o Cavaleiro da Esperança, que meu pai tinha feito desaparecer da estante de casa na época da ditadura militar, todos os outros livros de Jorge Amado estavam lá, que li na adolescência, os do ciclo do cacau, eram muitos os títulos, como Jubiabá, O país do carnaval, Cacau, Capitães da areia e outros. O cavaleiro da esperança era Luiz Carlos Prestes, o principal líder comunista brasileiro.

O Bicalho levava tão a sério essa coisa do comunismo que dava uma tremenda bandeira. Colocou nomes russos nos filhos, os da minha idade eram o Gorki e o Valmik, que frequentaram comigo o jardim de infância e o curso primário do Coronel Francisco Martins. Uma passagem que fez furor na época aconteceu quando uma das nossas professoras, carola e ultra-direitista, discursava em plena aula para crianças sobre as virtudes da UDN e elogiava o Prestes Maia, que foi duas vezes prefeito de São Paulo e responsável pelas obras das grandes avenidas da capital naquele período.

O Gorki levantou a mão no fundo da sala e disse: “professora, meu pai também é do Prestes”. “Que maravilha, meu filho. Seu pai é um homem sábio, o Prestes Maia é um excelente político”, disse a professora. “Acho que não é esse o nome dele”, retrucou o Gorki, arrematando: “O meu pai é do Prestes também, mas do Luiz Carlos Prestes.” A professora quase caiu de costas, deu um “oh” de horror, só faltou o vade retro, satanás. Gorki ficou mais famoso ainda quando, com pouco mais que dez anos, defendia a União Soviética no cineminha da AEC durante a crise dos mísseis soviéticos em Cuba, em 1962.

Naquela época, o fantasma do comunismo levava os reacionários, como a nossa professora, a difundirem a crença que seus partidários comiam criancinhas no café da manhã. Hoje, depois do depoimento da Xuxa, sabe-se que a realidade é bem outra.
 

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