Tutto si muove

Por: Everton de Paula

As coisas mudam. Aliás é antiquíssima a teoria da mutação. Tudo está em movimento, em transformação permanente e silenciosa. A árvore que admirei ontem à tarde não é a mesma de hoje. Durante a noite, suas moléculas, numa velocidade espantosa, arranjaram-se de tal forma que hoje talvez haja menos ou mais folhas, talvez um fruto tenha amadurecido ou surgido, algum galho apodrecido e caído, o tronco pode apresentar uma frincha, uma pequena fenda que ontem não havia.

É velha também a história da água do rio. Nunca é a mesma, embora a paisagem em torno nos iluda, sugerindo o contrário.

É da própria natureza a mutação das coisas, a transformação lenta e inexorável: o dia, a noite, as estações do ano, os ciclos da vida, a vida e a morte...

De todas as transformações, a que mais aprecio é aquela que se opera no interior das pessoas. Principalmente quando elas se transformam em pessoas melhores, amenizando o humor, abrandando a ira, derrubando a inveja e a soberba, vencendo o orgulho. É reconfortante saber que tantos pensam e apregoam a idéia de que somos, primordialmente, pedra bruta, e que está em nós mesmo a capacidade de transformá-la em pedra polida pelas ações que praticamos entre familiares, amigos e na própria sociedade.

Conheci um daqueles homens que lutam pelo sucesso muito depois de o ter conseguido; que ainda ficam jogando quando as arquibancadas já estão vazias, o outro time já saiu do campo e as sombras começam a descer em sua direção. Aos poucos a vida foi-lhe ensinando que a busca da felicidade tem alguns limites e lições. Esse amigo teimava em permanecer no mesmo método de busca da felicidade, e sentia-se frustrado porque a felicidade que ele almejava nunca era completa. Pensava, por exemplo, que sua vida estaria completa quando se aposentasse. Aposentou-se, mas ainda havia tanto por fazer! Então a felicidade seria quitar a casa própria. Quitou-a, mais ainda continuava muito grande o rol de coisas a fazer, a conquistar. Pensou que a educação completa dos filhos e sua autonomia seria a felicidade. Chegou esse tempo, mas vieram os netos e a história das esperanças recomeçou, a esposa passou a merecer mais carinho, mais atenção; enfim, a felicidade ainda não havia chegado.

Não é interessante a cegueira de alguns? Talvez a felicidade não seja propriamente algo a ser alcançado, mas sim o percurso para se alcançá-la.

Bravo, não?

E não estou sozinho nesta percepção: o fantástico romancista espanhol Miguel de Cervantes dizia algo parecido a isto: a felicidade não se encontra no final da viagem, mas sim no seu caminhar, nos pequenos hotéis e tavernas à beira da estrada, as pessoas novas que se conhecem, a paisagem, os animais soltos no campo, o tilintar de um pequeno sino de igrejinha de uma aldeia... Não é formidável? O fim da viagem é um pouco decepcionante; o trajeto é bem mais emocionante, a cada nova paisagem!

Enfim, aquele meu conhecido transformou-se, como se transformam todas as coisas do mundo. Passou a exercitar uma sabedoria da qual nunca tivera conhecimento. Passou a pensar que o próprio sucesso é uma espécie de fracasso. Por exemplo: quando chegamos ao pé do arco-íris, verificamos que ele não existe. Se ganhássemos um castelo na Espanha, descobriríamos que não haveria água encanada.

E aí está a magia da vida: desafiar-nos sempre para que sempre estejamos em ação, em busca do melhor. O passado é referência histórica, o presente é o momento de ação e no futuro estão nossas metas. Sucede que quando chegamos ao futuro, estaremos num outro presente e haverá um novo futuro. E a cada dia que nasce, novas ferramentas são postas em nossas mãos para que possamos polir a nossa parte bruta. E aprimorar o nosso interior.

Temos em cada ano, em cada mês, em cada semana, em cada dia, em cada hora, em cada minuto, em cada segundo uma nova oportunidade para melhorar a nossa vida.

Isto não é maravilhoso?

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