Templo Lunar

Por: Janaina Leão

Despertou molhada. A lua cheia se aproximava... A lua anciã.

Lua dos loucos prateando a noite com raios que mais pareciam flechas entrecortando a escuridão. A mesma que testemunhou o nascimento da Terra.

Foi uma época difícil de suportar... Elas ficavam muito agitadas. E a medicação nunca continha tamanha humanidade. Assim a noite entrava clarinha, por entre as grades libertadoras do hospício municipal. Um cheiro de relva verde, com Meia Noite.

Ela coçou a cabeça nervosa e chamou a enfermeira:

– Perdi o sono.

– E o que você quer que eu faça?

Silêncio.

Ela não ousava perturbar o sono das outras, pois sabia que ali dentro, era a coisa mais valiosa.

Havia adquirido o hábito de falar sozinha, e pensar também. Mulheres doentes... pessoas ilógicas, bocas mudas que diziam tanto sobre ela. Sentia medo de se tornar igual e fumar quimba de cigarro como quem come algo doce. Lembrou do dia que a Tia do Passarinho deitou-a em seu colo e começou a procurar piolhos. Sempre havia uma epidemia, a de piolho era a mais divertida. Contagiava um carinho primata, que unia e enchia o templo de emoção. Entendiam por meio dos gestos que elas eram acima de tudo bichos. Elas não precisavam da razão, nem de combinar roupas, tampouco assistir filme europeu. De certa forma era um lugar de descanso real. Ninguém ali precisava ser. SER...

Era fácil estar no mundo.

Às vezes queria sair...queria fugir e sempre tentava, mas pra onde? Acabava sempre parada na porta, sem rumo.

Minutos, horas, gemidos, sono. Remédio, gemidos, suores, dores...comida e sono. Tudo fluía sem tempo, e sem nomes.

Manhã pássaro-musical. Enquanto as loucas se despiam para o banho monitorado, ela prestava atenção na imagem daquele homem. Roupa prateada, cabeça de globo fincando com as mãos um pedaço de pau na Lua. Não gostou, não gozou...

Contava exatos sete meses ali dentro , seguindo a lógica lunar, na mesma época em que um homem pisou nelas. Havia também um povo colorido, que pedia paz e amor-cantando, enquanto um povo verde ia para algum lugar , sem muita vontade.

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