O que você está lendo?

Por: Jane Mahalem do Amaral

Recentemente fui convidada a participar de um grupo no Facebook para partilhar leituras. Sempre me julguei uma boa leitora, mas confesso que fiquei um pouco impressionada com a qualidade dos participantes do grupo. Numa era digital como a nossa, somos levados a pensar que o livro já está em decadência, ou que as pessoas não têm mais tempo para o papel. No entanto, nessa pequena amostragem, numa comunidade basicamente francana, é animador descobrir leitores apaixonados. O interessante é a variedade de livros, autores, diferentes estilos e diversas linhas de pensamentos conceituais. Da literatura, passando por biografias, crônicas, poesias, yoga, meditação, literatura infantil e juvenil, o grupo vai se alinhando, conversando, trocando ideias e redescobrindo caminhos. Há um incentivo que desperta desejos, cria curiosidades, aquece as escolhas. Há espaço para todos, mas é claro que esse espaço se delimita mesmo aos que gostam de ler. Ainda acho que falta muita gente interessante para entrar, no entanto estou conhecendo (ainda que só virtualmente!) pessoas surpreendentes, de uma nova geração, que por incrível que pareça, amam Machado de Assis.

Esse grupo tem me feito pensar sobre minha trajetória de leitora. Será que eu seria hoje quem sou, se não tivesse me deliciado com Monteiro Lobato, sonhado com os amores impossíveis de José de Alencar ou amadurecido minha visão de mundo pelos olhos de Machado de Assis? Onde eu assentaria meu olhar não fosse o contato profundo e encantador com Clarice Lispector? E se eu não tivesse tido a graça de embelezar minha alma com Vinícius de Morais, Chico Buarque de Hollanda, Adélia Prado, Cora Coralina, Fernando Pessoa, Drummond , Mário Quintana? E o que seria de mim sem a viagem com Guimarães Rosa pelos Grandes Sertões e Veredas? E se a simplicidade direta e profunda das crônicas de Rubem Braga e da poesia de Manuel Bandeira nunca tivessem chegado a mim? E se eu não pudesse me espantar com o inusitado de Manoel de Barros e com a doçura de Cecília Meireles? Se o olhar de educador e o pensamento filosófico de Rubem Alves não tivessem me ajudado com meus alunos? Se eu não descobrisse a sensualidade com Jorge Amado? Se o Ziraldo não colorisse meus olhos? E se eu ficasse realmente cega antes de conhecer Saramago e seu Ensaio sobre a Cegueira? E hoje, o que faria se não bebesse intensamente na fonte espiritualista de Jean-Yves Leloup?

Percebo que meus passos por essa vida foram e ainda são amparados, protegidos e iluminados por esses autores e seus livros. Eles têm sido mais que mestres: representam minha caminhada, sustentam minhas escolhas, aliviam meus enganos, consolam meus desenganos, acolhem meus sonhos e revelam para mim, quase sempre, a realidade que muitas vezes não quero ver ou não compreendo. São companheiros que definem meu olhar.

Por isso, sou grata a todas essas pessoas que alimentam a leitura. Gosto do grupo do Facebook que incentiva, abre gavetas, aponta estradas, questiona e sugere livros, sugerindo assim mais vida para cada um. Agradeço a quem tem força para não deixar adormecer aquilo que é essencial.

Apenas me entristeço quando constato que muitas pessoas não têm , não tiveram e possivelmente nunca terão a riqueza de uma trajetória com tão brilhantes companheiros de jornada...

Lamento a solidão de quem não conhece a gostosa companhia de um livro.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras