Dora do Ananias

Por: Lucileida Mara de Castro

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A fogo-apagou deu sinal de vida em algum lugar por ali. O dia mal começava a clarear e os bichos já iam despertando sons para espantarem a solidão do mundo.

Dora olha para o tempo: o sol deveria ser firme o dia todo. Seria bom que fosse assim, muito havia para ser feito: ordenhar as vacas magras, separar um pouco de leite para fazer queijo e, se houvesse alguma sobra, fazer um pouco de doce.

Havia ainda a lida da casa: ajeitar as poucas coisas, aplainar o chão de terra batida, usar as cinzas do fogão à lenha para deixar o chão tratado e bem cuidado; arear as panelas, os tachos de cobre, lavar um pouco de roupa no poço, ferver e alvejar a sacaria de algodão que Seu Abrão mandara como parte do pagamento pela última remessa de queijos que ela enviara para a cidade.

Às vezes, faziam negócios à base de troca. Dinheiro não era algo tão farto por ali. Por isso, o escambo de gêneros de primeira necessidade era prática comum. Entretanto, sempre via alguns tostões. Seu Abrão, o dono da mercearia, era homem justo, bom negociante. A sacaria foi um arranjo vantajoso para os dois. No final das contas, sua vida era tão miúda, tão simples, que o pouco que ganhava fazia fartura: um pouco de feijão, um tantinho de arroz ou e vez em quando, um pedaço de toucinho, era tudo de que precisava.

A casa de Dora cheirava a alecrim. Na cozinha, tinha sempre um punhado deles para varrer o forno do fogão à lenha. Dora cheirava a pão assado, a biscoito de polvilho, a queijo fresco e doce de leite. Dora cheirava a trabalho e solidão.

Quando nasceu ganhou nome completo. Depois, como Maria das Dores Evangelina de Jesus fosse longo ou difícil demais para a distante Serra do Indomado, virou só Dora. Um dia, um vaqueiro calado passou pelos lados onde vivia com a família. Achou que Dora servia para ele. Falou com o pai, combinaram a base do acordo e Dora se foi com ele. Foi quando virou Dora do Ananias.

Nunca pensou na convivência em termos de amor ou carinho. Desde que chegou à casinha branca, no alto da serra, soube que o silêncio seria seu companheiro. Por isso, acostumou-se a falar umas poucas palavras para os bichos.

Ananias era um bicho, mas com ele Dora pouco conversava. Não! Talvez ele não fosse um bicho, mas era um homem que vivia do avesso, só convivendo com aquilo que se passava dentro da própria cabeça. Ora! Ananias era um boi! Um boi tangido por uma ideia perdida em algum canto da mente, uma ideia que o levava para longe da vida vivida. Então! Então ele era mesmo bicho, pois boi não é bicho?

Quando vieram os filhos, Dora já se desacostumara a conversar. Os meninos foram ficando como o pai: monossilábicos, arredios, avessos. Passavam os dias enfurnados no mato, às voltas com arapucas, armadilhas, com pescarias no riacho e com comer fruta no pé.

Foram-se todos como vieram. O primeiro a partir foi Ananias. Isso foi no tempo que o vento dos três dias e três noites tombou tudo o que passava pela sua frente. Quando, no entardecer, começou a ventar, pela primeira vez, desde que Dora o conhecera, Ananias sorriu. Um sorriso tímido, sem prática, mas claro o bastante para que ela se espantasse. Ele tirou o chapéu e o pendurou no prego fincado perto da porta, depois olhou para cada um dos meninos de forma intensa; foi até a beira do fogão, olhou fixamente nos olhos de Dora e depois de um – Inté, Dora!, embrenhou-se ventania adentro e nunca mais voltou.

Quanto aos filhos, quando Dora se deu conta, tinham virado lembranças.

A fogo-apagou agora se anunciava um pouco mais perto de Dora. Inadvertidamente ela olhou para as próprias mãos, eram mãos de uma mulher velha, bem velha. Os olhos já a traíam.

A ave recantou e um conhecimento novo se instalou na alma de Dora. Toda a sua vida passou rapidamente em sua memória.

Em meio ao mundo sem fim da Serra do Indomado, ela se perguntou: Maria das Dores Evangelina de Jesus, quantos anos você tem? Depois de matutar um pouco, compreendeu que não sabia a resposta. Olhou vagarosamente para as paredes enegrecidas da casinha em que vivera tantos anos, apagou a última brasa do fogão, fechou as janelas e portas. De forma serena, deitou-se na cama de couro, palha e painas. Sabia que chegara a hora de também ela ir-se embora.

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