Ananias e o Vento

Por: Lucileida Mara de Castro

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Há horas as mulheres estavam entretidas em fazer farinha de mandioca e polvilho. Conversavam solto, contavam histórias já contadas e recontadas. As que ouviam, antecipavam riso e lançavam olhar zombeteiro em direção àquela que era motivo da brincadeira.

As crianças corriam livres pelo mundo delas: andanças, brincadeiras inventadas, descobertas e artes. Ananias, ainda muito pequeno, arrastava-se pelo terreiro em espaço vigiado pelos olhos da mãe e das outras. Não chorava, não ria, não balbuciava. Ananias atentava. Seus olhinhos se fixavam nas coisas do quintal e espiavam intenso. Não fosse criança tão novinha, poder-se-ia dizer que Ananias cismava e quietava.

A quietude é irmã do esquecimento. Embaladas pelo mantra das mãos que ralavam e lavavam raspas de mandioca, as mulheres, por algum tempo, esqueciam-se de espiar o menino. Foi por isso que ninguém viu quando, reptícia, a cobra se aproximou da criança. Por quanto tempo ficou ali, ninguém sabe dizer ao certo. De certo, certo mesmo é o que se conta à boca pequena sobre aquele momento.

O pequeno, feito cobra, deitara-se no chão e dali espiava a serpente nos olhos movendo a cabecinha para lá e para cá. A reptícia criatura acompanhava os movimentos da criança e qual estivesse hipnotizada, deixara-se dominar pelo olhar do menino.

Tianinha do Jazeu não pensou e nem atentou para os próprios pelos arrepiados quando desferiu o golpe de facão e decepou a cabeça da cobra. Ananias, de ordinário tão quieto, olhou para Tianinha como estivesse magoado e chorou um choro sentido que durou um dia, uma noite e outro dia. Ao fim desse longo choro, calou-se e o silêncio, como fosse o sol surgindo após longa chuva, passou a ser seu companheiro mais próximo.

Um dia, apareceu um homem desconhecido. Vinha em carroça enfeitada por cores vibrantes e oferecia todo tipo de mercadoria: tecido, linha, botão, espelho, água de cheiro, tesoura, navalha para barbear. Ao bater os olhos sobre a mãe de Ananias, Tera o mascate desejou possuí-la como nunca desejara mulher alguma. Mostrava as mercadorias, mas todos os seus gestos, todos os seus cuidados, eram para ela. Ananias, como desde sempre, fitava todas as coisas ofertadas: mercadorias e gestos, com profundidade e intensidade.

Em dado momento, Tera o mascate tirou de dentro do baú uma enorme concha e, com sorriso misterioso, levou-a até o ouvido de Ananias enquanto dizia: aqui dentro está guardado o barulho do mar.

Ananias segurou a concha contra o próprio ouvido e, sem poder se conter, depois de muito e muito tempo em silêncio, falou e, quando o fez, foi para descobrir o infinito: o que é o mar? Perguntou ao visitante.

Tera o mascate, com linguajar arrastado de quem luta para empreender o conhecimento de língua alheia, olhou nos olhos de Ananias ao falar: o mar, menino, é o berço de todos os mistérios, berço da vida, morada do infinito, e das profundezas, e do vento. O mar guarda dentro de si todas as energias celestes. É ponto de partida, é ponto de chegada. É o que separa e o que une. O mar é único. Não tem começo e não tem fim. É como dentro da gente: silêncio, tumulto, desconhecido, medo e beleza. Descobrir o mar é como nos revelarmos para nós mesmos. Olhar o mar, ver o mar, ouvir o mar, cheirá-lo e sentir-lhe o vento, nunca tem fim.

Ao se calar, Tera o mascate sentia-se como quem saía de devaneio. Olhou para o meninote e se sentiu preso aos olhos profundos. Para se libertar, disse-lhe que levasse consigo a concha. Era um presente, um pouco do mar. Ananias agradeceu com reverência. Tomou a concha como um tesouro imenso. Afastou-se e, nos dias seguintes e ainda nos outros, caminhava até o ponto mais alto da Serra do Indomado, firmava os olhos no mais distante que sua vista podia alcançar, depois os fechava guardando tudo dentro de si: a serra, o horizonte, o tempo, a vida, o escuro, a imensidão. Só então, já com tudo imerso na alma, levava a concha aos ouvidos e ouvia o mar, o vento e a vida. Junto, em uníssono, ouvia o seu coração e então tudo cessava, e o que havia era o início de todas as coisas e Ananias podia. Ao poder, desejava a vida, e a vida pulsava em seu corpo púbere, e Ananias fazia amor com o intangível.

Quando o pai disse: Ananias, você vai carrear comigo!, não discordou, nem comentou. Ainda havia muito de madrugada quando pegou seu embornal e se instalou no carro-de-boi. As palavras trocadas entre pai e filho eram miúdas, uma ordem aqui e outra lá. Assim, o baixão entoado pelo ranger do eixo azeitado preenchia os dias e anunciava a chegada dos carreadores na passagem pelos vilarejos. As moças saíam dos casebres e acenavam. Foram assim os dias que separaram seu tempo de moleque e a chegada do homem que havia dentro dele. Foi em um dia assim que, passando por um vilarejo viu Dora. Enquanto as outras acenavam aberto, Dora baixava os olhos, via só um pouco, não via jeito de se fazer aparecida. Ele gostou do jeito contido e pensou que ela servia para ele. Há tempos, os outros vinham dizendo que ele precisava escolher uma mulher. Escolheu Dora e levou-a consigo.

Deu à Dora um cantinho no alto da Serra, deu à Dora uns filhos, deu liberdade à Dora e apresentou-lhe o silêncio. E ela recebeu o que lhe foi dado e tocou a vida como essa precisava ser tocada. Ela recebeu o que lhe foi ofertado, dando em troca o que Ananias pedia: paciência. Aos poucos, o homem sentiu-se compreendido pela mulher que escolhera. Ela aprendeu-lhe o inquieto e percebeu que havia uma imensidão dentro do seu homem. Não o percebia em toda a sua complexidade, mas intuía, e isso bastava para ele.

Por isso, quando começou a ventar, primeiro um uivo baixinho e depois de forma avassaladora, homem e mulher entenderam que o tempo havia chegado, e que o vento não cederia até ter o que buscava: Ananias.

Ananias-menino chamara o vento, Ananias-mocinho amara o vento, Ananias-homem era parte do vento. Com toda a sua fúria, chegara a hora do vento buscar o que era seu e, por isso, rondou e uivou e destruiu até que Ananias fizesse a sua escolha e se entregasse de maneira irrestrita.

Quando saiu para o quintal, Ananias sentiu o vento penetrar-lhe as carnes. Gritou, e o vento respondeu. Chorou, e o vento lambeu-lhe as lágrimas e forçou até que Ananias abrisse os braços, até que abrisse a alma e lhe entregasse o profundo e o infinito. Aos poucos, foi tragando a essência do homem, e levando-a para um distante e quase inalcançável lugar, que revela apenas uma porta para o mundo dos homens: as conchas que guardam os mistérios do mar.

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