Beleza e sexo como moedas de troca

Por: Sônia Machiavelli

180756

“Os muito formalistas que me perdoem, mas o enredo ainda é fundamental.” A frase é do crítico de cinema Luiz Zanin Oricchio que em texto da semana passada até parecia dar razão à despropositada observação de Paulo Coelho sobre o Ulysses, de Joyce: “ toda a trama poderia ser resumida num twitter”, disse o mago. Mas não, era a outra obra e diferente autor que se referia Oricchio. Ele destacava a força do enredo de um livro que provocou frisson quando lançado na França em 1885. Bel Ami é considerado o melhor romance de Guy de Maupassant.

O assunto surge não por conta de algum revival, neste tempo de Bienal, mas em razão do lançamento no Brasil do filme que o livro inspira e tem como protagonista Robert Pattinson, astro da série Crepúsculo, composta por histórias vampirescas. O ator passeou pelo noticiário nos últimos dias, mas desta vez de forma constrangedora, por conta de traição de sua parceira na tela e na vida, Kristen Stewart. Enquanto ela filmava nova versão de Branca de Neve do diretor Rupert Sanders, com quem se envolveu, Pattinson concluía seu trabalho no filme dos diretores Donnelan e Ormerod em produção anglo-francesa-italiana.

Pattinson vive na história Georges Duroy, o Bel Ami do título, pobre jovem provinciano de beleza extraordinária, que só se dá conta dela e do que ela pode lhe render, ao aceitar a ajuda de um amigo cuja mulher o seduzirá. Esta será a primeira de muitas outras mulheres, também bonitas, inteligentes e influentes, que lhe abrirão caminho na carreira e na vida social depois de o atraírem à sua cama. Isso é só um lado da trama, pois ambos os cavalheiros citados são jornalistas vivendo no mundo das redações, dos acontecimentos, da gente parisiense que parece embebedar-se nas luzes e no champanhe do fin-de-siècle. As relações de prestígio, de interesse, também de venalidade, complexam o universo desta narrativa ágil, envolvente, surpreendente, em alguns momentos deprimente, e sempre profunda pelo que desvela dos lados sombrios da alma.

Tem razão Oricchio ao dizer que o enredo é tão bom que a fraca interpretação de Pattinson e a direção tímida dos cineastas não impedem o espectador de se ligar à história, que fisga o público desde os primeiros momentos e o mantém especialmente curioso diante das investidas sexuais que movimentam a vida do protagonista em busca de status. Há uma ação principal que cria suspense, descrições plásticas de cenários, composição densa de personagens, um retrato da Paris feérica do período singular que antecipa aquele que inspirou Woody Allen em Meia-noite em Paris. Mas há principalmente excelentes diálogos e considerações do narrador onisciente a propósito das grandes questões que inquietam o homem: vida, dever, ética, amor, desejo e... morte.

O cinismo perturbador do protagonista reflete o pessimismo do autor em relação à natureza do homem, característica que marcou todos os autores da corrente naturalista à qual o ficcionista se filiou por um período. A escola literária, se durou pouco, pois logo seria superada pelo realismo, menos rígido e mais nuançado na observação da vida, deixou algumas obras maiúsculas como este Bel Ami, cuja atualidade impressiona. No mundo contemporâneo enaltecedor da aparência, não é incomum encontrar figuras humanas em diário exercício de seu narcisismo doentio, indiferentes ao que podem causar aos outros com suas ações deletérias. Todos os alpinistas sociais se parecem, seja nos aspectos ridículos, seja nos trágicos: ter tido esta percepção e conseguir transferi-la para sua ficção foi um dos trunfos que levaram Maupassant ao patamar dos escritores que nunca são ultrapassados, pois estão sempre apontando as mazelas de nossa condição humana. O outro trunfo é sua capacidade de elaboração de histórias que cativam, criam visgo com o leitor, não o deixam fechar o livro senão depois de saciada sua curiosidade, o que só acontece no desfecho. Que, no caso de Bel Ami, não é catártico, diga-se afinal.


RIQUEZA INVENTIVA

Guy de Maupassant

O nome de Guy de Maupassant está estreitamente relacionado ao artista que fez do conto a sua obra máxima. Ítalo Calvino o insere no seu cânone com os contos Bola de Sebo e O Horlà, este último representativo da extrema excelência alcançada pelo francês no gênero sobrenatural. Tanto quanto Edgar Allan Poe, Maupassant fez do fantástico uma incursão que mantém o leitor fisgado às páginas. Também foi poeta e romancista. No romance, sua obra prima é Bel Ami. Pela empatia que conseguia fazer brotar de imediato no leitor, foi o escritor mais traduzido e mais lido no mundo nos últimos anos do século XIX.

Dizem os biógrafos que Henry René Albert Guy de Maupassant, nascido em 1840, teve infância sem necessidades materiais. Viveu no campo até os dez anos, em companhia da mãe, mulher culta que tinha entre seus amigos grandes escritores do país, inclusive Gustave Flaubert. Mas ao ser abandonada pelo marido, passou a sofrer de depressão..

Aos 20 anos Maupassant deixou sua cidade, Tourville-sur-Arques, e foi para Paris, tentar a vida de escritor, já com alguns contos para mostrar aos amigos da mãe. Deu muito certo. A literatura o enriqueceu e tornou famoso. Teve muitos amores, mas não se casou. Com problemas mentais, provavelmente causados pela sífilis, passou os últimos anos mergulhado em angústias e alucinações. Tentou o suicídio em 1892. Internado em hospício, morreu no ano seguinte. Seu túmulo, no cemitério Montparnasse, ainda é muito visitado pelos fãs, que enaltecem a riqueza inventiva de tipos, situações e dramas. (SM)

Serviço
Título: Bel Ami
Autor: Guy de Maupassant
Editora: Estação Liberdade
Tradução: Leila de Aguiar Costa
Preço: R$ 42,84
Onde comprar: submarino.com

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras