O Solista, o filme

Por: Maria Luiza Salomão

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O solista oferece ocasião para uma conversa ampliada com parentes e amigos de doentes mentais graves como Nathaniel Ayers, diagnosticado como esquizofrênico. O filme retrata sua história real e também a de Steve Lopez, jornalista que escreveu o livro homônimo sobre o encontro dos dois, nas ruas de Los Angeles, EUA. Nathaniel, músico talentoso, se dedicou, desde pequeno, a tocar vários instrumentos. Lopez o ouviu tocar, belamente, na rua, em um arremedo de violino com apenas duas cordas.

O filme aproxima os “solos” do jornalista e do esquizofrênico. Lopez é separado da mulher, também jornalista. O filme inicia com o “solo” de Lopez, que dirige sua bicicleta, em fluxo contrário aos ciclistas. O jornal em que trabalha está sendo entregue nas casas, manhãzinha, e aparece uma crônica assinada por Lopez “A vida tem sua própria mente” na primeira página (sugestão de ele ser um talentoso jornalista). Um guaxinim (?) atravessa a sua frente e ele estatela no asfalto. Vai para o hospital, e lá rabisca no papel uma crônica, tipo “eu sozinho no hospital”. Vai todo estropiado para casa, o taxista sequer o ajuda a retirar a bicicleta do porta-malas, ele checa a secretária eletrônica nenhuma mensagem. Tudo “solo”, talvez a característica pessoal de Lopez que o aproxima de Nathaniel. No jornal, ninguém comenta sua cara arrebentada, olho inflamado e roxo (um deles fechado) nem a ex-mulher lhe demonstra qualquer compaixão. Lopez comenta com ela, em uma cena, que ele nunca teve paixão por coisa alguma, nem ninguém, como Ayers tem pela Música, por Beethoven. A ex-mulher o ouve, ofendidíssima, claro.

Quem somente faz “solo” na vida, por incapacidade, por acidente (a loucura é uma espécie de acidente de percurso), por escolha, pode estar vulnerável a um predador que pode devorá-lo em sua solidão (predador que pode ser ele mesmo, sem o saber). Vejo uma metáfora no meio da história, que ilustra o dito -”o mais forte engole o mais fraco”. O jornalista tem problemas com guaxinins, que comem minhocas e, assim, destroem a grama do seu jardim. Para espantar os bichos, um vizinho lhe receita usar urina de coiote em sacos plásticos pendurados em árvores. Lopez se encharca com a urina destinada aos predadores. Depois de um tempo de convívio com Nathaniel, Lopez contempla os guaxinins à noite, pensativo, e como que nos sugere que está a fazer um paralelo entre os guaxinins e a situação vivida por Nathaniel e por ele, os dois sobreviventes no difícil convívio com eles mesmos, e com outros, nas ruas.

Lopez se encanta com a paixão de Nathaniel pela música, pelo dom que o liga à vida, não obstante a sua desagregação psíquica. A música (como a escrita para Lopez) parece blindar Nathaniel do mundo implacável em que vive (mundo interno, já que ele o sente mais infernal do que o mundo externo). Lopez recebe a doação de um violoncelo de boa qualidade, de uma leitora interessada em suas crônicas sobre o músico que toca violino com duas cordas, e, entusiasmado, ele procura resgatar Ayers do sub-mundo. Mas Ayers não quer deixar o “seu” mundo, em que sola magnificamente. Um dos produtores do filme quis saber do verdadeiro Nathaniel Ayers como ele conseguia ouvir e tocar o instrumento no meio do barulho da cidade, e se encantou com a sua resposta: “eu ouço apenas a música, e os aplausos das asas dos pássaros”. Lopez aprende a respeitar a loucura de Ayers, recua e permanece fora do seu mundo solo.

O analista, como Lopez, sofre para aprender o “timing”, de entrada e saída do mundo-solo dos pacientes, que não costumam ser permeáveis ao trabalho conjunto, orquestrado. A irmã de Nathaniel é um exemplo da dificuldade de estabelecer um contato sustentável com o esquizofrênico.

Quem é “o” solista? Lopez? Nathaniel? Todos nós? Quem cura quem? Um solista não é toda a orquestra (e vice-versa). O final do filme dignifica, não falsifica, a intensa experiência emocional do encontro dos dois homens, de seus solos em contextos únicos e diferenciados. Para Lopez, o autor do livro O Solista, esta é uma história de “segundas chances” na vida.


EXPERIENTE EM TRANSPOSIÇÕES

Joe Wright

Diretor britânico, londrino, Joe Wright vê os dois personagens do filme, Steve Lopez (Robert Downey Jr) e Nathaniel Ayers (Jamie Foxx), como dois “estrangeiros” (entendi o “estrangeiros” como se estivessem “exilados” em sua própria cultura). Wright, nessa perspectiva, assumiu ser, então, um diretor estrangeiro, um observador da cultura americana, no filme O Solista, de 2009. A roteirista do filme é Suzannah Grant.

O diretor é experiente em adaptar obras literárias para o cinema. Dois filmes seus foram indicados ao Oscar: Orgulho e Preconceito, 2005, (baseado em livro homônimo de Jane Austen, 1813) e Desejo e Reparação, 2007, (baseado no livro Reparação, 2002, de Ian Mc Ewan), neste último recebeu Oscar de Melhor Trilha Sonora, para Dario Marinelli, amigo a quem admira, e que realizou a trilha sonora de três filmes seus. Está em pré-produção, 2012, Anna Karenina. Fez várias séries para TV.

Foi o diretor mais novo a abrir o Festival de Filmes em Veneza, 2007, com “Desejo e Reparação”. O diretor é disléxico, o que mais valoriza o seu trabalho, dá a medida do seu esforço para transportar a palavra literária à linguagem cinematográfica. Algo que me comoveu foi o fato de Joe ter aceitado a direção de O Solista sob uma condição. A de que os figurantes no filme, os moradores de rua (os “extras”), fossem os reais abrigados do Lamp, instituição que recolhe os “sem teto” ( 90.000 em Los Angeles) e de outros abrigos da cidade. Não apenas para conferir realismo às cenas, mas como uma forma de lhes dar trabalho e de terem alguma recompensa. Uma forma, eu penso, de ele nos fazer lembrar dos anônimos.


Serviço
Título: O Solista
Direção: Joe Wright
Duração: 117 minutos
Gênero: Drama
Onde: Hoje, no Centro médico, no evento Cinema e Psicanálise.
Quem apresenta: Ana Cláudia G Ribeiro Almeida, psicanalista

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