Olhos fechados

Por: Eny Miranda

Envelhecia. Sentia-o ao receber os convites de casamento e de formatura dos meninos que vira nascer; ao encontrar-se com pessoas distantes e perceber o quanto haviam mudado; ao saber da partida definitiva de ex-colegas de escola... Verdade que seu corpo também não era mais o mesmo, não tinha a agilidade e a força de antes, mas a alma -como explicar? - não modificara o gosto pela vida, pelos planos, pelos sonhos, o que lhe conferia ao olhar e ao sorriso um brilho quase jovem, um quê de alegria, otimismo, e até de certa graça, certo frescor. O tempo, este sim, parecia-lhe deslocado em si mesmo, o futuro chegado às pressas, muito antes de o presente lhe permitir realizar um décimo do que programara (e continuava programando!). Sentia-se atropelada por esse intruso, esse visitante precipitado. Ainda havia tanto a fazer, tanto a aprender, a visitar, a conhecer, a partilhar... Contudo, aquele prematuro e pertinaz emissário de epílogos insistia em negar-lhe a possibilidade de tais intentos, em lhe deixar claro seu parco saldo na estranha cronologia da vida; obstinado em anunciar-lhe o pequeno espaço disponível, em solapar-lhe cada minuto de primavera possível: eram os convites de amigos para participar de Clubes e de excursões da Terceira Idade, de bailes da Velha Guarda, de visitas a boas Casas de Repouso; eram os espelhos a exibirem vincos, cada vez mais fundos, sulcados na pele do rosto...

Fechava os olhos. Para ela, como para o poeta, ainda era tempo de “ouvir estrelas”.

Até bem pouco, a vida parecera transcorrer em ritmo “normal”. Nunca lhe permitira grandes escolhas, e ela não se arrependia das que fizera. Casara-se, tivera filhos, agora bem sucedidos, vivendo suas vidas em outras cidades. Aos poucos fora construindo seu espaço, escrevendo sua história, nesse momento, ao que tudo indicava - ainda que à sua revelia - aproximando-se célere das linhas derradeiras.

O escrever exige muitas vezes dolorosas revisões. Nessas revisões, inevitáveis, surgem as comparações. Revia, pois, e comparava.

Havia muito saíra de sua cidade, lá deixando pais, parentes e amigos. Passara por várias outras, sem se fixar em nenhuma delas. Os filhos, cedo saídos de casa, dedicaram-se, cada vez mais, às suas atividades e às pessoas deles mais próximas, no tempo e no espaço.

Ela, de tanto escrever e revisar e comparar sua história, começou a se sentir atraída pelo passado e pelo poente; pelas folhas amareladas, quase desgarradas de suas matrizes; pelos pores de sol nimbosos; pelo sépia, o nevoento; a identificar-se com os dias neblinosos, as manhãs acinzentadas - garoa fria alfinetando e arrepiando o ar. Passou a se fixar em atmosferas silenciosas, inanimadas.

Um dia, crendo chegado o tempo, olhou à volta. Viu apenas cinzas, resíduos das últimas chamas.

Suspirou, cerrou os olhos.

Então percebeu, brotando na linha do horizonte, um novo, nítido, levemente sonoro tremeluzir de estrelas.

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