Todos os sentidos

Por: Débora Menegoti

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Aqui, sorrisos são ‘vale-compras’... Ando, conquanto que lá, sorrisos se encantam em vales. - Vale das Borboletas. – Ando dias a fio e a fitas, e neste sonho meu reencanto é lá.

A vista não arde garganta e olhos, a voz pouco serve. Podem partir de vento ou para o vento sem ela, posso também perdê-la no alto da montanha ao berrar largamente libertando assim todos os animais selvagens que a contra gosto vivem presos dentro de mim.

A este ponto não sei mais o que são: sinaleiros, agenda, tentação e traição.

O que sei agora são talvez apenas sabores: caroço, polpa, néctar, fios, carnadura e uma miraculosidade de tons escorregadios!

E tem ainda meninos de butuca, risadas ao longe, cipós... O barulho das águas ao morderem as pedras... O coaxar dos sapos convidativos e românticos! Há exuberantes troncos, raízes e suas folhas dançarinas... E todos os tipos de vozes mansinhas.

Sei também de lá muito suor pingando do rosto, do fedorzinho do jenipapo, de bolhas nos pés, de bicicletas esquecidas despreocupadas pelas ruas, de carrapatos, de bicho de pé, e rosas nas janelas que descansam abertas.

Remédios aqui (nem sempre em cápsulas, pílulas ou comprimidos) curam em prol da ausência de engarrafamento, da ausência da angústia, do excesso de inocência. Bússola são pares de olhos voltados pro céu, pontos gravitacionais para onde convirjo toda ânsia inquieta de presenciar um belíssimo e inusitado espetáculo!

Os males do peito também possuem causa e efeito só quando saímos pra pescar, se alguém grita espantando os peixes, o lagarto sorrateiro, o bem-te-vi, o canário e o sabiá.

É comum que lá adquiram a mania de colher e plantar. Todos visitam o pomar que ele plantou e cultivou com amor, assim como faz em tudo, tudo que toca, pois é de seu costume amar em cada gesto... Enquanto os Damascos os João Bolões visitam as bocas afortunadas do tempo vago.

Parâmetro de beleza é imitação desta natureza sobre-humana das águas que escorrem entre o verde da vida e as pedras que são mortas ali há muitos anos.

Lá, a terra não escolhe o homem pela grossura das mãos, pelos bens, pela homogeneidade de espírito e crenças, tão pouco por marra ou capacidade de proteção. Pois cá entre nós, lá tudo está a salvo do entendimento de tais coisas; os seres estão libertos em alma na potencialidade de naturalmente amar.

Algumas mulheres guardam inabalável inocência, incansável destreza para prendas caseiras, irreversíveis conversas ‘delicadas’ com suas ‘amigas’, suas curvas barrocas em saias e cabelos sempre bailando com o vento!

O ambiente revela quase sempre muitos cheiros: são crepes, café torrando, bebidas alcoólicas, mangabas, cajamangas... puro e fresco ar umedecido, doces feitos com as frutas da época, eucalipto, dama da noite, peixes...Trocamos trocados por sementes, porcos, galinhas, palma em frente à casa, café na cumbuquinha.

Infância...

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