Adélia da Laine

Por: Débora Menegoti

Fui conhecer aquela senhora poeta por quem você se apaixonou.

Visitei os sabores e as mágicas cores de seu lar.

Lembranças que guardo bem o quanto posso. Contando sempre, que a memória não me seja traiçoeira. No peito ela já se confunde.

— Foi um sonho?!

 Seria mais fácil dizer de seus poemas se eu tivesse experimentado o sabor de seu doce de cidra, ou o de abóbora com coco, que tão humilde dama usou para datar os seus magníficos originais.

 Foi então que eu soube:

 — Você já esteve lá. Já se deliciou do doce que escorria de seus dedos, não é mesmo?

Corri para procurar Adélia em todos os dicionários, mas não a encontrei. Tive ânsia de comer terra úmida ou casca de parede, como fazia aquela Rebeca de Macondo... Que ciúme senti!!! E foi justamente você, Laine, quem pôde trazê-la pra mais perto.

A Laine explicou-me por meio das flores que cultivou sozinha, como nasce este nome: Adélia, que também é mais que um nome; é uma mistura ímpar de sentimento dobrado em milhões de coisas. Este sentimento enfeitiçou-me.

Você tentou curar-me da desilusão com sua sopa, com sua dança, com vinho, pandeiro, pão de queijo de Minas... E tivemos até Milton Nascimento conosco pra nos fazer esquecer o que mais nos doía.

Me ensinou 10.000 novos tons de cores (pulando propositalmente os tons de amarelo a laranja). Uma cura de trás pra frente. Não acha???

Antes que eu pudesse amadurecer a dor que você já sentia. Antes mesmo de gerar um filho com quem você já previa. Sacramentos amargos, como nós, ninguém mastigou. Santificados em terríveis paródias feitas de sombras, ciúmes, traições, não capazes de explicações para nada do que houve. Nem para toda beleza que ainda assim nos trouxe.

Me trouxe.

Insiste agora, porém em estado latente, o que me arde por dentro; como o solo deste cafezal sem fim ao meio dia.

Quando olho pra cima vejo apenas o sol que ameaça despencar do céu sobre minha cabeça.

Penso que Adélia ainda é de nós duas. Para nós duas. Assim como o toque tenro deste vento que move as ondas a beijarem teus pés de ébano aí no Rio (‘seja lá onde ‘Rio’ possa ser agora, seus sonhos podem ter mudado de direção também; não é mesmo?’); talvez doce assim como as canas daqui...

Não tão doce quanto tua Adélia, mas, ora essa, vamos! Faz tanto tempo...

— Aceita um gomo, vai?
 

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