Aprenda jabuticabês em 5 minutos

Por: Leo Lopes

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No quintal de Dona Geralda conversam duas jabuticabeiras.

Que língua elas falam? O jabuticabês.

O que elas tanto falam? Jabuticabices, é claro.

Parece que elas estão muito contentes, pois é época de jabuticaba. Dá impressão que elas se orgulham de suas frutinhas, uma até esnoba um pouco a companheira:

– Sabe quantas eu tenho?

– Não.

– Nem eu, até perdi a conta.

Ali de onde vivem conseguem enxergar a casinha de Dona Geralda. Através da porta e da janela sempre abertas, conseguem observar a cozinha da velha: a mesinha com uma única cadeira onde as tardes se sentam; um pequeno armário com duas gavetas para guardar cupins; e lá, encostado, o fogão a lenha e ao tempo.

– Hoje de manhã eu vi o sol passar manteiga no pãozinho de queijo da Dona Geralda.

– Eu também vi. Depois ele veio brincar com minhas jabuticabinhas.

A árvore que parece ser um pouco menos velha pergunta:

– Será que já nasceram todas?

A outra responde, com sabedoria:

– Não, ainda faltam algumas. Tenha paciência.

Assim elas passam o dia, jogando conversa fora. A tarde vai chegando ao fim, as cores diminuem. Devagar, o sítio de Dona Geralda vai sumindo, se curvando à vontade da noite que manda a todos escurecer e veste as jabuticabas de esconderijo.

Agora está completamente escuro. Dona Geralda já dorme faz tempo. As árvores escutam som de passos e fazem silêncio. No meio da noite negra uma criança se aproxima. Um belo menino, que parece usar os olhos à meia noite como se fosse meio dia. Ele conhece o caminho, conhece aquelas folhas secas que se quebram sob seus passinhos, conhece cada jabuticaba daquela que agora ele acaricia com dedinhos que parecem já ter confeitado cometas, parecem já ter confeccionado planetas, parecem já ter debulhado estrelas.

Mas ele não veio para chupar jabuticabas. Ao contrário, ele retira algumas do bolso e ali, num espacinho, depois em outro, aqui em baixo, lá em cima, numa árvore e na outra, ele vai pregando as jabuticabas nos galhos fazendo carinha de quem está achando tudo muito bom.

Mas as escolhas que faz não são por acaso. As jabuticabeiras permanecem em silêncio para não atrapalhar, pois sabem que cada fruta tem o seu lugar e existe um bom motivo para estarem exatamente onde estão. Só o menino sabe a razão da existência de cada uma delas. Mas ele não conta pra qualquer um.

E do jeito que chegou, ele se vai, em silêncio, caminhando entre trevas como se pulasse fogueiras.

Quando amanhece, depois de comer seu pãozinho de queijo, Dona Geralda vem até as jabuticabeiras, percebe que elas estão ansiosas.

– Bom dia Dona Geralda!

– Bom dia Dona Maria!

A jabuticabeira mais velha, com o coração batendo mais forte, pergunta:

– Os seus netinhos vêm esse ano, Dona Geralda?

– Claro, a coisa que eles mais gostam nessa vida é chupar jabuticaba. Amanhã eles devem estar aqui.

E a coisa que uma jabuticabeira mais gosta nessa vida é de criança que chupa jabuticaba.

– Dona Geralda!

– Pode falar Dona Tereza.

Dona Tereza, emocionada, com lágrimas nos olhinhos pretos, diz:

– Olha, avisa pro seus netinhos que o menino Jesus caprichou dessa vez!

A velhinha sorri:

– Eu sei, comadre. Eu sei.

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