A ‘Angústia’ vai chegar ao cinema

Por: Sônia Machiavelli

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O cineasta Sylvio Back já se decidiu: vai colocar o artigo definido à frente do substantivo abstrato no título que dará à transposição para a tela de um dos mais densos romances publicados em língua portuguesa – Angústia, de Graciliano Ramos. Faz sentido, pois a angústia de Luís da Silva, o atormentado protagonista, é específica e o torna parente espiritual do personagem central de Crime e Castigo, de Dostoievski: deriva da culpa. Mas se no romance russo este sentimento é ponto de partida para uma redenção, no brasileiro é o ápice de uma desorganização mental que cresce de forma avassaladora.

Angústia é a história de um modestíssimo funcionário público que ganha uns trocados a mais escrevendo artigos sob encomenda para um jornal de Maceió, durante o primeiro governo Vargas. Seu deslocamento se dá por ruas, cafés, bares sórdidos e prostíbulos da capital de Alagoas. Mas é na casa alugada e cheia de ratos onde mora no subúrbio aviltado, que mais se revela sua persona atormentada, ressentida, ciumenta e oprimida. Oriundo de família liderada pelo velho Trajano, poderoso fazendeiro, cujas terras se perdem pela preguiça do filho Camilo, o neto Luís deixa a zona rural para se fixar na cidade. Ele é fruto de um declínio que resulta da crise de mudança de sistema. Como o próprio país onde vive.

A história tem início com o narrador personagem contando que se levantou há trinta dias, mas ainda se mantém preso às visões que o perseguiam “naquelas noites compridas”. Ficaremos sabendo com o andar da narrativa que, outrora, o convalescente Luís da Silva apaixonou-se por uma vizinha ambiciosa de nome Marina, mas foi por ela rejeitado quando apareceu Julião Tavares, pretendente de posses. Grávida e abandonada por este, Marina provoca um aborto. Diante destes fatos, Luís da Silva toma uma decisão criminosa que se mostrará deflagadora de um pesadelo sem fim. Nada mais existencialista.

Com raros diálogos em suas 235 páginas, o romance é um grande monólogo interior no qual o protagonista reconta sua história, voltando ao ponto de partida no final e criando assim o efeito de circularidade. Ele está preso no microcosmo que construiu e do qual não tem escapatória. É da própria essência do sentimento de angústia que se constroi a estrutura desta extraordinária obra de ficção. O narrador atordoado desliga-se da realidade e seu fluxo de consciência quebra as fronteiras de espaço e tempo, borra os limites entre passado e presente, em muitos momentos mergulha em devaneios cujo caráter onírico leva ao leitor uma impressão de alucinação. Reforçam esta sensação a reiterada alusão a símbolos fálicos como cobras, gravatas, cordas, vinculados a uma visão misógina que reduz todas as mulheres a seres ridículos, pequenos, sórdidos, vulgares, ignóbeis e ignorantes.

Reiteração é, aliás, palavra-chave na construção de Angústia. Frases, personagens e símbolos são retomados de forma obsessiva, até que se reúnem todos nas páginas finais, num belo efeito estético que consiste em recolher o que se semeou nas anteriores. Como um buquê exótico , o narrador agrupa signos exaustivamente mencionados, como “a mulher que lava garrafas”, “o homem triste que enche as dornas”, “a datilógrafa de olhos esgazeados”, “as filhas do Lobisomem”, “ a mulher da rua da Lama”, “o cego dos bilhetes” etc, e os oferece ao leitor como uma das mais fortes e comoventes páginas da língua portuguesa, capaz de rivalizar apenas com a Clarice Lispector de A paixão segundo GH. Em ambos os ficcionistas, os personagens monologam sem disfarces, sem máscaras, sem pudores diante do leitor.

Sílvio Back, que já levou para as telas a poética de Cruz e Souza e a biografia de Stefan Zweig, disse que desta vez terá muito mais trabalho com a transposição de linguagens. E para conseguir imagens que mantenham a grandeza da prosa, se prepara filmando o documentário O Universo Graciliano.

A fragmentação do tempo e a densidade psicológica do protagonista pedem um entendimento profundo do mundo captado pelo olhar do grande escritor: é o que busca o cineasta. Graciliano Ramos, por sua vez, também flertou com as artes plásticas e o cinema. Levou para Angústia a estética surrealista que, profundamente influenciada por Freud, enfatizava a importância do inconsciente na criação artística. E usou recursos cinematográficos como as técnicas do fade in /fade out, aumento/diminuição de imagens, mostrando-as em impactantes trechos descritivos neste livro que, publicado em agosto de 1936, quando seu autor estava no cárcere, não perde a atualidade.

Sobre quem fará o papel de Luís da Silva, segredo absoluto. Por enquanto.

Serviço
Título: Angústia
Autor: Graciliano Ramos
Editora: Record
Ano:1981

O mundo infernal

Graciliano Ramos
No posfácio à vigésima terceira edição de Angústia, Otto Maria Carpeaux diz que “a mestria singular do romancista Graciliano Ramos reside no seu estilo.” Linhas à frente, explica o que considera estilo: “escolha entre o que deve perecer e o que deve sobreviver”. Sintetizando, é a opção pelo essencial. E o essencial em Graciliano Ramos é “mostrar o mundo inferior, às mais das vezes o mundo infernal. Lá, onde as almas são caçadas por um turbilhão demoníaco de angústias, como as almas no átrio do Inferno de Dante”. Assim o Luís da Silva do romance resenhado ao lado; assim todos os protagonistas dos seus livros tornados clássicos.

Graciliano Ramos nasceu em 1892 em Quebrangulo, Alagoas. Aos 13 já escrevia poemas. Aos 18 mudou-se para Palmeira dos Indios, cidade da qual viria a ser prefeito eleito em 1927. Entre 1915 e 1925 trabalha como revisor de jornais, no Rio de Janeiro. Volta ao Nordeste em 1926, envolve-se em política, filia-se ao Partido Comunista, assume o cargo de Diretor da Imprensa Oficial de Alagoas e, depois, da Instrução Pública. Em 1936 é preso, acusado de participar do levante comunista. Em 1937, é colocado em liberdade. Trabalha intensamente até 1952, ano em que faz viagem à então União Soviética, a Portugal e França. No retorno, seus 60 anos são comemorados solenemente. Adoece . Morre em março de 1953. De sua bibliografia constam os romances Caetés, São Bernardo, Angústia, Vidas Secas; os livros de memórias Infância e Memórias do Cárcere; os de contos - Dois Dedos e Insônia; os de crônicas - Linhas tortas e Viventes das Alagoas; de viagens, Impressões sobre a Tchecoslováquia e a Rússia; e a ficção para crianças Alexandre e outros irmãos. (SM)
 

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