O fascínio da perversão

Por: Maria Luiza Salomão

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Oscar Wilde, em seu livro O Retrato de Dorian Gray, cujo filme homônimo, 2009, vai ser comentado no Cinema & Psicanálise, faz do protagonista aquele que vende a sua alma em troca da permanência de sua Juventude e Beleza. Anseio atual, esse! Forever Young...diz a música.

Entre Basil, que vê a Beleza na Arte, e sir Henry, que crê na Beleza, captada pelos sentidos, está o protagonista Dorian (jovem deslumbrado que chega à cidade grande). Sir Henry quer corromper Dorian com ideias que não pratica, colocando a Beleza, mormente a dele, Dorian, acima da Bondade e da Moral. Ideias de Henry extraídas do livro O retrato de Dorian Gray: “não existe influência boa, Sr Gray. Toda influência é imoral...(...) influenciar uma pessoa é transmitir-lhe a nossa própria alma “ela se transforma em eco de uma música alheia, em ator de um papel que não foi escrito para ela. A finalidade da vida é o desenvolvimento próprio. (...) O problema é que, hoje em dia, as pessoas têm medo de si mesmas. Esqueceram-se do mais nobre de todos os deveres, o dever para consigo mesmas. (...) todo impulso que procuramos extinguir germina em nossa mente e nos envenena (...) o único meio de nos livrarmos de uma tentação é ceder a ela. Se lhe resistirmos, nossas almas ficarão doentes, desejando as coisas que se proibiram a si mesmas, e, além disso, sentirão desejo por aquilo que algumas leis perversas tornaram perverso e ilegal. (...) o senhor (...) deve ter tido paixões que o amedrontaram, pensamentos que o encheram de terror, sonhos despertos e sonhos adormecidos, cuja simples lembrança poderia tingir de vergonha as suas faces...” (p.23-24)

Gray se deixa seduzir pelas palavras de Henry, no ateliê de Basil, no qual posa para um quadro. Dorian, para Henry, teria tudo, se mantivesse sua Juventude e Beleza. Ao ver o seu retrato acabado (a obra-prima de Basil) Dorian Gray se desespera ao constatar que, no quadro, a sua imagem não envelhecerá, não enfeará, enquanto para ele restaria o destino dos mortais. Dorian Gray sela o seu Destino - dá a sua alma para que o quadro (a Arte, sempre imortal) envelheça e receba as marcas de seus vícios e pecados, enquanto Dorian seguirá pela vida, eternamente jovem e belo.

Wilde descortina o lado dark da alma humana, os desejos primitivos de homens e mulheres, recobertos por camadas de verniz civilizatório. Ele assim classifica as mulheres: “as que se pintam e as que não se pintam. (...)se quer adquirir renome de respeitabilidade deve convidá-las para jantar (as que não se pintam) . (...) as outras se pintam para tentar parecer jovens. As nossas avós se pintavam para tentar conversar com brilhantismo. (...) Hoje, tudo se acabou. Enquanto uma mulher consegue parecer dez anos mais jovem que sua própria filha, está completamente satisfeita”.(p. 54)

Basil registra “algo” de Gray, o Belo na Arte. Mas, como quis Wilde na história, a Arte de Basil não salva nem cura ninguém. A Arte é assassinada, em nome do Ódio à Realidade (de Henry, nas palavras, e de Dorian Gray, no p(acto) com o diabo). As palavras de Henry são cultivadas, materializadas no estilo de vida de Dorian, na busca do Prazer pelo Prazer; esse passa as palavras daquele “ao ato”, blindando a sua imagem, enquanto a alma se torna presa de seus desejos, solitária e errante (o quadro registra, visceralmente, os seus crimes e o seu envelhecimento).

A virada do romance se dá quando Dorian Gray destrói, perversamente, aquele que mais o amou, atacando vitalmente a Virtude (a Arte).

Contemporaneamente, assistimos à busca (insana) de Prazeres imediatos, fáceis, descartáveis. Busca permanente e insaciável, pois os sentidos facilmente se entediam, e pedem recorrentes novidades - a busca obsessiva de Prazer instaura um círculo vicioso. Dorian Gray, em seu obsessivo culto à própria Beleza, se choca com a existência do Outro, que não lhe é Espelho, que não é o servo especular do seu Desejo. É no reconhecimento da Alteridade que criamos laços perduráveis, complexos, de afeto. Freud, 1914, em “Introdução ao Narcisismo”, diz que seríamos doentes se não amássemos. Amar é um trajeto de difícil, lento, mas belo, aprendizado ético, trazendo alguma Redenção (ou Arte) à precária condição humana, o que Dorian (emblematicamente) não alcançou.


FÃ DE WILDE

Oliver Parker

Oliver Parker realizou a 17ª versão para o cinema ou TV do livro de Oscar Wilde. As anteriores: Dorian Gray Portrait (1910), The Picture of Dorian Gray (1913), Portret Doryana Greya (1915), The Picture of Dorian Gray (1916), Das Bildnis des Dorian Gray (1917), Az Élet Királya (1918), O retrato de Dorian Gray (1945), Dorian Gray (1970), The Picture of Dorian Gray (1973), The Portrait of Dorian Gray (1974), A Nudez de Hollywood (1978), The Sins of Dorian Gray (1983), Dorian Gray - Pacto com o Diabo (2001), The Seven Deadly Sins: Gluttony (2001), The Picture of Dorian Gray (2004) e Dorian (2005).

Este é o terceiro filme que o diretor realiza baseado em livros de Oscar Wilde. O diretor inglês (52 anos) fez “O Retrato de Dorian Gray” (2009), baseado no livro homônimo, de 1890. Não parece um filme fácil de fazer. Na sua versão cinematográfica, o “Retrato” (a alma do protagonista) se mostra vivo, movimenta-se e até emite sons. Pelo grande número de versões cinematográficas, pode-se conjeturar que “O Retrato de Dorian Gray” fascina os diretores na busca da ponte entre o já clássico da Literatura e a Arte do Cinema.

Dono de aforismos instigantes, Wilde escreve, p. 217, na voz de sir Henry: “o Destino não envia arautos. É sábio demais ou talvez cruel demais para isso”. Dorian Gray constrói seu Destino funesto, na tentativa, sempre frustra, de viver “acima do Bem e do Mal”.


Serviço
Filme: O Retrato de Dorian Gray
Onde: No Centro Médico
Quando: Hoje, 15h00
Quem comenta: Maria Auxiliadora Borges dos Santos

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