Consuelo de Paula em fase azul, no CD Casa

Por: Vanessa Maranha

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Depois de marcar uma digressão do amarelo que era o tom permanente da trilogia composta por “Samba, Seresta e Baião” (1998); “Tambor e Flor” (2002) e “Dança das Rosas” (2004) com o DVD “Negra”, a cantora mineira Consuelo de Paula inaugura com o CD Casa, a sua fase azul, que tem a elaboração poética como fio condutor, de par com certa densidade interiorizada que o tom azul evoca em tênue melancolia. Dedica ao matiz, inclusive, uma canção em que metaforicamente o vento comparece em seu movimento, intitulada exatamente “Azul”, e explica, aliterando: “o azul é miragem/é imagem de Deus”.

O disco tem instrumentação da orquestra curitibana “À Base de Corda” e arranjos de Dante Ozzeti, Weber Lopes, Chico Saraiva e Luiz Ribeiro. E também um registro da parceria de Consuelo de Paula com o violonista Rubens Nogueira, que faleceu neste ano.

Quem acompanha a carreira de Consuelo de Paula reconhecerá aprofundamento conteudístico e formal em seu mais recente voo, uma nova textura, amadurecimento, talvez, jamais repetição, ainda que a coerência aos seus temas caros permaneça intacta, a saber, no bucolismo e na organicidade da infância mineira perfumada de religiosidade e nas cantigas-de-bem-dizer; frescor de cascatas, promessas de amor.

A canção “Convite”, que abre o disco, conclama o ouvinte à sensorialidade pela lírica enumerativa, recurso literário característico das letras de Consuelo. “Notícias” traz nuances melódicas nordestinas. “Destino”, traz atavismo e fluência, conforme definição da própria cantora. “Fé”, em travo popular, põe o ouvinte a sambar e confere leveza ao conjunto. “Estrela” e “Réquiem” homenageiam num lamento, em timbres e modulações de voz a perda do parceiro querido e promovem o fechamento do disco.

Retrospectivamente, e não dá para compreender Consuelo de Paula sem o anteparo da sua bela caminhada, “Samba, Seresta e Baião” e “Tambor e Flor” podem ser traduzidos como festas à vida e à pertença, louvores ao divino e às heranças; “Dança das Rosas” se inscreve no registro da dramaticidade pungente, passional, dilacerada. “Negra” arremata os dois hemisférios com os pés literalmente no chão, uma obra telúrica, e, Casa fala de amorosidades sofisticadas, retorno a algum ponto primevo, um pranteio ancestral.

Casa é poesia em estado de música.


BIOGRAFIA

No tom do Brasil

Consuelo de Paula é natural de Pratápolis (MG). Radicada há mais de vinte anos em São Paulo, violonista e percussionista, é autora e produtora dos CDs Samba Seresta e Baião (1998); Tambor e Flor (2002) e Dança das Rosas (2004) e agora, do seu Casa, ricos em elementos de todo o país, mas, claramente referenciados em sua terra natal, onde manifestações como as congadas e o moçambique estão incorporadas na cultura popular.

No caso das congadas, festejos de cunho religioso trazidas ao Brasil pelos escravos africanos a partir do século XVI que representam a coroação de reis e rainhas do Congo, e que se constituem num cortejo percutido a acompanhar cantos e a expressão de textos. O moçambique é uma dança dramática de caráter guerreiro, em que cada dançarino carrega um bastão, manifestação igualmente embalada por ritmos de percussão.

Consuelo tem também no currículo uma antologia produzida no Japão que elege os 500 melhores álbuns da música popular brasileira. A partir disso, teve editada lá mesmo uma coletânea intitulada Patchwork, com quinze de suas músicas da trilogia citada. Sua canção “Sete Trovas” foi gravada por Maria Bethânia no premiado CD Encantería e no DVD Amor, Festa e Devoção.

No ano passado lançou o DVD Negra e o livro “Poesia dos Descuidos”, com versos para as ilustrações de Lúcia Arrais Morales, este último publicado a partir de premiação da Secretaria de Cultura do Estado de SP.

Serviço
Título: Casa
Gênero: Música
Artista: Consuelo de Paula.
Onde Comprar: Nas lojas de CDs

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