A hora do guri

Por: Everton de Paula

Talvez fosse esse o nome do programa que a Rádio PRB-5 de Franca comandava aos domingos, pela manhã, em seu auditório na Praça Barão da Franca. Ah, isso lá por volta dos anos 50. Éramos muito crianças; o mais velho da turma do quarteirão teria uns 9 anos, não mais que isso. Parece que o programa começava por volta das 10 horas. Sentávamos, com nossas calças curtas ainda, nas cadeiras de plateia e ouvíamos as sucessivas apresentações de meninos e meninas cantando as músicas em voga. Para os meninos, a quem chamávamos de “fresquinhos”, dávamos uma sonora vaia, acompanhada de ensurdecedores assobios e chutes na cadeira da frente. Quando chegava a vez das meninas, ficávamos quietos: nem aplausos, nem vaias, apenas um incômodo rondava nosso peito sem que a gente entendesse por quê. De vez em quando, o locutor jogava à plateia uma mãozada de balas Nilva, a patrocinadora do programa.

Pronto. A manhã de domingo estava cumprida. Voltávamos em bando para casa. Pai algum viria buscar seu filho de carro. Interessante isto: nunca andei tanto como na minha infância. A bicicleta viria bem mais tarde, antecedida pela patinete. Mas esta era só para brincar, pois exigia o esforço de uma das pernas posicionada sobre o chão para impulsionar as duas rodinhas. O status de possuir uma bicicleta só viria muito mais tarde, quando entrávamos no ginásio, como prêmio por termos sido aprovados no curso primário.

Na verdade, quatro eram nossos reinos: o interior de nossas casas (alimentação, banho, festinha de aniversário, armação de presépio, lição de casa), o fundo do quintal (brincadeiras proibidas), ruas e calçadas (peladas com bola de meia, brincadeiras estúpidas como garrafão, unha-na-mula, cebola...) e a escola. Quando veio o catecismo, a Igreja bem que quis ser o quinto reino, mas era um reino do outro mundo, um reino de bocejos e culpas. De tudo na Igreja, o que mais me incomodava era o ato de confissão. Eu não conseguia entender como teria que contar a um padre aquilo que nunca meus pais poderiam ouvir. E, no entanto, os pecados não eram mortais, nem veniais, nem mesmo de algodão, pois começavam com o mais horrível deles, assim expresso: “Padre, eu pequei: briguei com meu irmão...” Não passava disso porque ainda não tínhamos desenvolvido a teoria e a prática da inveja, da ira, da luxúria, da gula... Mas o fogo do inferno e os olhos esbugalhados do demônio viviam a nos espreitar, muito mais que os olhos de um
Deus a quem devíamos amar mais que aos nossos próprios pais. Incompreensível!

Dinheiro para comprar gibis não havia. Então, era tomar emprestado, e não devolver, de forma a conseguir uma pilha deles. Líamos as mesmas aventuras de um Capitão Marvel, dos Sobrinhos do Capitão, do Bolinha, do Tarzan, do Zorro várias vezes. Quando a história já estava quase decorada, chegava a hora de trocar os gibis. E o ponto de troca era em frente aos cinemas, nas horas que antecediam as matinês nas tardes de domingo.

Falei das festas de aniversário. Era, de fato, um acontecimento anual e respeitável. A mãe passava parte do dia preparando o bolo, os sequilhos e outras guloseimas. À noitezinha, a mesa era posta como num ritual: o bolo ficava na ponta principal da mesa; e em suas beiradas, em fileira, os pratinhos de doces e as xícaras para o achocolatado. Presentes? Como me lembro deles: menino dando presente para menino era coisa sem-graça, mas que toda mãe exigia. Então lá ia: sabonete Lifebuoy, meias Lobo, lenços, espelhinhos, pente, às vezes um gibi novo. O presente mais cobiçado era o do pai, claro: um carrinho, jogo de toquinhos para armar, uma bola de cobertão... Coisas finas! O duro era aguentar o abraço apertado e o beijo meloso da madrinha e das tias. Outra coisa: sem que percebêssemos, o “clube do bolinha” estava armado: menina não ia a aniversário de menino, salvo se fosse primo. E se menino fosse à festa de menina, não passava de “fresco”, fato que a escola inteira, no dia seguinte, ficava sabendo.

Às vezes, na sala de aula, o colega de trás dava um peteleco na orelha da gente. Ah, homem que é homem não poderia deixar isso em branco. Voltava para trás e dizia “Ó, na rua!”, enquanto a mão direita fechada batia na palma da mão esquerda. E a classe inteira gritava “Vai ter briga na rua!” Pronto, acabava o sossego da gente pelo resto das aulas. Por dentro, um misto de coragem e medo que invadia. Na rua, não havia como escapar: os outros colegas formavam um círculo; dentro dele eu e o desafeto. Jogávamos os objetos escolares no chão, cuspíamos nas mãos e dizíamos algo parecido a “Vem pro osso se você for homem!” E ninguém tomava a iniciativa. Até que um filho da mãe empurrava o desafeto para cima da gente e a briga começava, no meio dos apupos da assistência. A gente torcia para alguém intervir e acabar logo com aquilo. Qual o quê! A assistência queria briga, queria sangue! Para terminar logo com aquilo, depois de um tapa na nuca de um, e um meio soco no olho do outro, vinha o inspetor da escola apartar a briga. Pronto, éramos homens, não éramos “frescos”. A honra estava intacta. Saíamos nem vitoriosos nem derrotados, mas com a certeza de que havíamos ganhado o respeito dos colegas. Até que viesse outro desentendimento. Sinceramente, perdi a conta de quantas vezes eu briguei na calçada da escola. Mas ninguém dedurava ninguém. E mais: no dia seguinte, todos voltavam a ser amigos. Tínhamos no olhar algo de felicidade verdadeira; estampávamos em nossas faces a alegria de sermos meninos inventivos, criativos, participantes, saudáveis, amigos, brincalhões, leais...

Por que estou narrando essas coisas?

Porque ontem, vendo meu sobrinho de 8 anos, frente ao computador jogando um game qualquer, ao lado de seu celular, sozinho no quarto, notei-lhe as costas arqueadas, um olhar embaçado de desinteresse pela vida real, a falta de mobilidade física, nem um tiquinho de corado nas bochechas. E o que mais me impressionou: ele parecia um velho, um velho de oito anos, cansado de tanta tecnologia e tantas informações, e tantas amizades de “faz-de-conta” pela internet, as tais amizades virtuais. Senti pena e uma saudade imensa de minha dourada e palpável infância!

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