Lentes para a vida

Por: Eny Miranda

Meu único irmão e eu éramos, como se costuma dizer, “unha e carne”; entre nós reinava uma invejável cumplicidade. Contudo, tendo ele aqui chegado primeiro, gozava de certos privilégios. Exercendo sobre mim uma espécie de liderança hierárquica, acabava impondo-me limites e a ele(s) levando-me a obedecer. Mas, como autêntico líder, que era, sabia me conduzir prazerosamente à obediência, ou melhor, à concordância. Eu concordava com ele em (quase) tudo. Pudera! Tinha sempre ideias novas, contava histórias fantásticas (só de Pedro Malasartes, sabia um punhado e fabricava outro) e inventava brincadeiras industriosas e imperecíveis, tão divertidas quanto desafiadoras, como aquela em que criou um novo e complexo idioma com alfabeto próprio, para meu deslumbramento e minha angústia. Ou aquela outra, em que compôs vários personagens, absolutamente diferentes entre si, todos desempenhados por ele mesmo, e esplêndidos, animados companheiros de fantasias e reinações. Um dia, construiu - com lentes descartadas de óculos dos nossos avós - uma luneta que nos abriu novos mundos arbóreos, marítimos, insulares, lunares, estelares... Fazia, pois, da realidade sonho, e do sonho tema e método, essência e imagem, substância e forma. Ensinou-me a procurar o extraordinário no cotidiano.

Por ser um insaciável devorador de livros e de revistas, descobria através deles os encantos escondidos nas ciências físicas e astronômicas; nas letras, nos números, nas artes... e me levava a reboque de suas descobertas (verdade que, por vezes, pregando-me algumas peças). Eu, também fascinada pelas letras e os números, pelas belezas da forma, do conteúdo e do método, não economizava perguntas e não desprezava respostas; vivia rondando o seu espaço para dele receber bons influxos. Hoje, percebo o quanto foi paciente e generoso comigo (muito embora se divertisse bastante com isso).

Era um sábio e um artista, o meu irmão.

Agora, avô, é um artista sábio.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras