Eu sou este viaduto em construção

Por: Débora Menegoti

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Eu sou este viaduto em construção; como não quero brincar nem ser brinquedo de ninguém, essa caneta que não escreve nada eu joguei fora; por que tem mania de negar palavras. Não gosto disso. Agora digo sem medo: sem negações sem ficar falhando no meio das palavras.

Onde eu estava?

Ah! Sim. Sou este viaduto em construção. Há mil homens, há mil sons, há muito barulho, força, há muita gente trabalhando em mim durante o dia. E quando é noite, tudo cinza. Marcas de cansaço vazio, nada pronto, edificado, só concreto mole pelo chão, subindo em muros.

Cimento, muro, cimento. Cinza cimento, cimento cinza, cinza tormento, tormento cinza, sim tormento, assim sou cimento.

Não pulsa

Passará você daqui pra lá, te levarei.

Aonde quer chegar?

Não saberei

Sou só, em construção para sempre estarei.

Não posso tocar o céu com minha barriga

Acho que o firmamento me olha, me enxerga também cinza.

Ora condena, ora perdoa, ora nos entendemos... O que foi isso? Uma cuspida??? Ah não, xixi de cigarra.

Menos mal.

Tenho marcas para meu futuro: óleo e fuligem dos pneus, passaram por mim muitos sonhos teus.

Não seria teu cais nem teu porto. Estou cinza e torto. Não te levaria ao teu destino?

Desconstruindo mole escorro... Desconstruo? Derreto? Não derreto... Estou fixa imóvel sou só ponte não sou porta. Estou parada mas reflito, não estou morta. Dura existo.

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