No jardinzinho de casa

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194417

A cidade, Franca. O ano, meio da década de 50. O bairro, Vila Flores. O imóvel, número 85. A casa, construída segundo planta popular: varanda, três quartos, sala, cozinha e banheiro. Quiosque no fundo, coberto com folhas de flandres, depois com telhas, por cima das quais corria amor-agarradinho, carregadinho de florzinhas cor-de-rosa. Venezianas com cortinas de renda de algodão feitas pela mãe, aquelas de babadinho como arremate e amarradas pelo centro com laço, feito cós. Na frente da casa, jardinzinho coberto de grama, com agaves e arbustos de jasmim do campo. Também floridos. Cinco meninas. Três moreninhas: vizinhas? Primas? Identidades perdidas no tempo. Duas loirinhas - a menor, tão linda; a maior engolindo o lábio inferior que a boca era enorme e a envergonhava. Na janela, sentadinhos, Fabinho, vizinho, filho de dona Zilá e seu Fábio, colega de Banco do Brasil do pai das loirinhas na época mero contínuo, funcionário raso, e o irmão delas, André, então o caçula da família. André nasceu com paralisia facial: lado direito comprometido por tombo que a mãe levara durante a gravidez. Receberia, da criançada e dos deficientes mentais mais velhos das escolas que freqüentaria, o impiedoso aposto de ‘boca-torta’ ao seu nome, à guisa de identificação. Ele aceitava o indelicado apelido - bullying - com estoicismo e superioridade. A irmã mais velha odiava a agressão ao irmão indefeso e muitas vezes chegaria em casa machucada porque, mesmo frágil, avançava feito leoa nos moleques da rua. A casa desapareceu. As personagens da foto tomaram rumos diferentes. O apelido ainda é lembrado e a irmã defensora desistiu do papel de heroína. Infelizmente.

(Lúcia H. M. Brigagão)

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