A muda

Por: Heloisa Pereira de Paula Reis

Ela apareceu ainda criança, meio que do nada e foi ficando... A muda.

Como se comunicou... Difícil saber. A necessidade de sobreviver fez com que criasse sua própria linguagem. Como aprendeu a fazer seu trabalho, ninguém sabe... Parece que nasceu sabendo a que veio.

Criança que nunca foi não sentiu o tempo passar. Horas e dias não eram contados senão por seus afazeres monótonos. Dia após dia... Sem tempo para terminar. Sem tempo para brincar.

Preta, tornou-se alta, gorda pra dedéu... Benzia... Era só persignar-se à sua frente e pronto. Surgia a muda benzedeira, que livrava a molecada dos males que a afligia. Formavam até fila. E ela, tornava-se importante num pequeno espaço de tempo... Superior a eles. E era bom... Muito... Professava a fé de seus antepassados oprimidos... Benzia seus opressores, que o eram sem dar-se conta de tal.

Ajudou a criar filhos e netos de seu sinhô Ricieri e da sinhá Célia. Era tão bom estar com eles. Eram seu porto seguro.

O quanto trabalhou ninguém sabe. Seu nome era trabalho. Travestido de vida. Travestido de tempo.

Sonhos... Esperanças... Ilusões... Amores... Será que fizeram parte de sua vida?

O que queria para si, nunca ninguém saberá, talvez nem ela.

Mãe Preta... Mãe Muda... Mãe sem nunca tê-lo sido... Sem nunca ter carregado nas entranhas o fruto de um amor. Sem nunca ter os peitos intumescidos do alimento que sacia a fome do recém-nascido. Sem nunca ter sido procurado por uma boca ávida de satisfação. Seca. Árida. Mãe Preta.

Que a chamassem de preguiçosa, quando se retirava para seu mundo... Ela sabia não o ser... Apenas fugia para seu “mundo vasto mundo...” E sorria. Intimamente sorria, com o sorriso de uma liberdade tão sua... Num universo tão seu. Astuta!

Trabalhava e sonhava não o fazer, enquanto o fazia. Era seu grito abafado de revolta, que transformava num sorriso, que escondia a linguagem de sua dor. A muda.

“Quer retalhos muda?” Diziam aqueles que sabiam o quão suas hábeis e grossas mãos os transformavam em colchas bonitas, simétricas, caprichosamente feitas durante seu descanso.

Separava primeiro os tecidos: de um lado algodão, de outro seda, de outro sei lá o que. Mas primeiro os separava. Como se fossem a sua vida, como se fossem os sentimentos inerentes ao ser humano, que ela não nominava, mas sentia. Só depois iniciava seu trabalho a toda hora interrompido.

Era a hora de lavar roupas.

Era a hora de limpar o fogão à lenha. Serviço chato. Ninguém gostava de fazê-lo. E ela? A ninguém interessava saber. Era seu trabalho.

Hora de fazer sabão. Usava as cinzas do fogão. Dava muito brilho ao alumínio.

Era a hora de juntar os restos de comida para dar aos porcos.

Era a hora de passar roupas. O terno de linho branco do sinhô.

Era a hora... De fazer tudo que ninguém gostava de fazer. E ela fazia, sem que sequer perguntassem se gostava ou não. Sobrava para ela.

Era só mostrar o que tinha que ser feito. Ela entendia.

Não gostava de ser cobrada em seus afazeres. Ficava brava Resmungava. Emitia um som parecido com:

-Eu sabo. E sabia mesmo.

Cabelo imenso. Trançado e feito coque. A muda.

Não esquecia nunca de usar arruda atrás da orelha. Contra mal olhado.

Lembro-me tão bem de quando ela ficou mais velha e muito, muito mais gorda. Precisou de cadeira de rodas. Quando a molecada resolvia importuná-la, distribuía bengaladas, sem dó. E eles riam. Mas gostavam dela e muito. Ela o sabia. Quando não apareciam sentia falta.

Dar-lhe banho era difícil. Tão difícil que uma cunhada da sinhá Célia, um dia, resolveu dar-lhe banho de mangueira, no quintal. Revolta geral na casa. Primeira e última vez.

Mas, acontece que a lei da vida vale para todos. E eles se foram. E ela ficou.

Depois de certo tempo e de muito empurra-empurra, para saber com quem ficaria a muda, foi decidido que ela iria para um asilo. Onde seria “melhor tratada, melhor cuidada.”.

E lá foi ela... A velha muda... E foi ficando... Para terminar seus dias pensando sabe-se lá o que a respeito de ter sido deixada ali.

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