natal-do-começo-do-mundo

Por: Maria Luiza Salomão

Dizem por aí que o fim do mundo está com data marcada; ninguém lerá o que escrevo hoje; o Nossas Letras não circulará; não existirão leitores; não ouvirei o canto dos passarinhos; um silêncio tumular virá da avenida, ao invés do som dos carros a cronometrar o meu preciso horário de levantar; nem a música bate-estaca que corta o silêncio da madrugada irá comparecer; os cachorros vadios ou nas coleiras não latirão nem abanarão seus rabos; os gatos não subirão nos telhados, nem cairão de lá; até os ratos, cobras, lagartos, escorpiões, baratas serão eliminados; nenhuma fila nos supermercados porque supermercados não mais, nem teremos comida para dar ou vender, aliás, a fome estará erradicada; nada de ventos, furacões, redemoinhos, chuvas finas ou ruidosas (calmaria fatal); os rios fininhos ou caudalosos, lagos e oceanos sumirão liquidamente do mapa, e ainda as nevascas européias, e mesmo o verde brasileiro do Oiapoque ao Chuí; Arte e Beleza, a da natureza e a humanamente cultivada, esvanecerão como nuvens como se nunca dantes, aqui; os arranha-céus americanos, as praças espanholas e as italianas, a Torre de Belém, a Torre Eiffel, o Cristo Redentor, os Alpes, os Andes, todos se evolarão, neblinados e indefinidos, como a Via Láctea; as favelas do Rio de Janeiro e as milícias que apavoram os favelados, as praias do litoral brasileiro, os edifícios elegantes, eu não imagino aonde irão (unidos no mesmo pó); vai acabar a China e os múltiplos chineses (da Ásia só conheço os seus mitos); o Corinthians, bicampeão entre clubes de futebol do mundo, alegria de milhões de brasileiros, não será mais um evento histórico; o Cinema e a Literatura não permanecerão como guardiões do Passado; não haverá Passado; deslocarão, no espaço etéreo, a A.A.Francana (não a verei, primeira vez seria, no ano que não virá), o vitorioso Clube de Basquete de Franca, a Catedral, a praça Barão (quem registrará o vácuo disso tudo?); não haverá Futuro; não aprenderei mais coisa alguma...algum dia; não almoçarei no Alecrim, não jantarei com meu marido, em dia algum, doravante; não rirei, não chorarei por ninguém (nem por mim), serei areia de deserto sideral; destruídos os flamboyants; não verei crescer o guapuruvu, que tem 8 anos, muda que ganhei da amiga delicada (ela irá para onde?); não sentirei saudades, o que é ruim de não sentir; aliás, não sentirei qualquer sentimento, o que é morte morrida matada morte-morte; extintas todas as Paixões, amorosas ou não, assim como as Doenças físicas e as da Alma; não me inquietarei com quem não me compreende (no todo da minha obra ou em parte) porque não haverá resquício de compreensão humana; a Angústia desaparecerá; ninguém interrogará os mistérios da vida porque não haverá vida alguma; o meu coração de mãe não abrigará sequer a memória dos meus filhos; a humanidade devastada, sem testemunha ocular, sem histórias a contar, já que não haverá alguém para contá-las; não teremos guerra, disputa racial ou religiosa pois não haverá um mundo “em comum”; Deus não terá eleitos já que Deus desaparecerá com o crente; dispensadas “a última palavra” do ditador e a Grande Verdade dos delirantes. O mundo sem Música, sem Palavra, afônico, inimaginável...

Mas... se o mundo não acabar...o natal-que-não-foi-o-natal-do-fim-do-mundo, 2012, vai ser o natal-do-começo-do-mundo. Em cada um, o Menino (desamparado, nu, guardando o arco de promessas) vai nascer com olhos de sobrevivente, em manjedoura improvisada na cavernosa alma. Ao ganhar o mundo do presente, meninamente, que cada um viva um eterno natal, feliz, por séculos e séculos...

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