As flores de José

Por: Lucileida Mara de Castro

Aprendi, há algum tempo, que viver se assemelha a plantar canteiros. Naquela época, a comparação me chamou a atenção porque tenho convivido desde sempre com pessoas que se dedicam ou dedicaram-se a plantar canteiros reais ou canteiros subjetivos.

Minha vida foi sempre cercada por jardineiros da terra e jardineiros da alma. Quando nasci, fui embrulhada em panos de solidariedade e fraternidade e, desde então, gestos de humanidade são tão corriqueiros em minha jornada que acho natural receber e praticar estas demonstrações.

Meu povo veio de Minas Gerais. Muitos dos nossos migraram para o estado de São Paulo fugindo da pobreza, esperançados de conseguir prosperar junto com a indústria paulista que começava a ganhar corpo e força. A minha geração foi a primeira a nascer fora das serras de Minas.

Nas casas simples dos meus familiares ancorados em São Paulo prevalecia a mineirice: roupas muito brancas secando em varais feitos de arame farpado; café bem doce acompanhado por bolinhos de polvilho fritos ou pães de queijo feitos em casa e guardados em latas de alumínio muito areadas, para agradar aos que vinham de visita; tutu de feijão e torresmo; mingau de milho verde e arroz doce; chuchu verdinho e arroz feito na hora; casas muito limpas; mulheres costurando e cuidando da família; conversações que não tinham pressa enquanto as crianças brincavam de brincadeiras inventadas ou ouviam histórias de mundos encantados, aonde mulas sem-cabeça, lobisomens, assombrações ganhavam vida nas sombras criadas pela luz das lamparinas.

Era no tempo em que a água do banho era esquentada no fogão e nos lavávamos em uma bacia bem grande, mantida no canto da casa para essa finalidade; que as casas não tinham forro ou laje; que os muros eram baixos e nós não tínhamos medo. Uma época em que minha avó, que enviuvara antes dos 27 anos, dividia seus dias lavando roupas para fora, dependendo dos esforços de seus dois primeiros filhos -José e Maria - e buscando acalmar seu coração que sofria com os desatinos de seu terceiro filho: meu pai!

Tanto José, como Maria, eram ainda crianças quando ficaram órfãos. Quais acontecimentos e lembranças as seculares serras de Minas guardam desses dias de desamparo? Deve haver um momento plasmado nos cascalhos de Minas de quando as pequenas mãos de José aprenderam a conhecer o couro, os pequenos pregos, a grossa linha que costurava os calçados rudes com a gente de Minas pisava as pedras do caminho. Deve ainda haver alguma areia no fundo dos riachos que Minas, que tenha passado pelas pequeninas mãos de Maria para arear os tachos de cobre das senhoras doceiras daquele canto esquecido por Deus. Deve haver alguma poeira deixada para trás pelos pés do seu irmão mais novo, enquanto corria o mundo em busca de sonhos nunca encontrados.

Foi nesse tempo que José e Maria incorporaram às suas vidas noções de trabalho, responsabilidade e de simplicidade. Tudo o que veio depois disso, toda a vida de construíram foi profundamente marcada por gestos alinhavados por esses pilares.

A mesma vida dura que expulsou a família para o estado de São Paulo, permitiu que José conhecesse sua companheira amada, tivesse seus próprios filhos e que, aos poucos, se tornasse Zé Mineiro.

Aqueles pilares da existência de José receberam a companhia de paredes que tiveram o requinte de serem constituídas de ótimo senso de humor; de paciência; de um saber ouvir; de um falar manso e cheio de sabedoria; de gestos exemplares; de dignidade; da força de quem conhece a dor e aprende com ela.

As paredes da existência de José foram se transformando em enormes canteiros com flores visíveis para aqueles que puderam receber seus gestos de solidariedade, de amizade e humanidade.

Um dia desses, da mesma maneira discreta com que viveu, José Mineiro Alves de Castro partiu de maneira inesperada. Os amigos que haviam enxergado seus singelos canteiros de sabedoria semeados pela vida afora, cobriram-no de tantas honrarias e homenagens que José, por certo, corou.

Mas o que se haveria de fazer, seu José? Nada mais justo, mais merecido, pois o que ali vimos, enquanto o velávamos, foram as flores de esperança e amor plantadas pelos seus gestos ao longo de toda uma vida, materializando-se diante dos nossos olhos: as flores dos canteiros da alma de José.

Meu tio, por tudo isso, não lhe diremos adeus. Ficaremos com até logo e com as flores plantadas pelos seus gestos vicejando em nossas próprias vidas.

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