Caras do progresso

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200935

Idos 50 e 60, infância e puberdade dos hoje sessentões, Franca estava distante de São Paulo, de Campinas. Do Rio então, nem se fala. Bahia ficava noutro planeta e a Amazônia, será que existia? Viagens internacionais eram para privilegiados. Trajeto Franca - Uberlândia demorava um dia inteiro se - e somente se - o trem chegava no horário na cidade da baldeação - do contrário ia noite adentro. Ônibus interurbanos levavam pessoas transportando sacos com galinhas e porcos vivos, gaiola com passarinhos. As malas eram de papelão e iam sobre o teto do ônibus do lado externo, protegidas por grades de ferro laterais e amarradas com cordas. Sem proteção: chovia, as malas molhavam, as roupas transportadas nelas se encharcavam. Melhor que diligência, mas igualmente desconfortável. A comunicação telefônica dava os primeiros passos. Verdade que D. Pedro II já se comunicava através do telefone, mas a grande transformação da tecnologia teria grande impulso a partir de 50, com a invenção do minúsculo e eficiente chip, ele mesmo a prova cabal que tamanho não é documento. Às vezes o ônibus quebrava. Descia todo mundo com suas vasilhas recheadas de frango e farofa, cestas com laranjas - descascadas -, refrigerantes, pacotes de pé-de-moleque e goiabada, sacos que mexiam, cacarejavam e guinchavam. Protegiam-se as crianças; apertados procuravam matinho de localização discreta; se chovia era o caos.
Piscar de olhos: as distâncias encolheram, percurso São Paulo - Londres leva o tempo de Franca-Uberlândia de outrora; o celular foi inventado. Mudança de costumes. Dividia-se lanche dentro (e fora) do ônibus. Hoje compartilha-se conversa ao telefone celular: confidências, preocupações, recados, avisos, fofocas tudo é falado alto e em bom som. Privacidade misturou-se ao público. Dizem, esse é o preço do progresso.
(Lúcia H. M. Brigagão)

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