Encontro no Carnaval

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

Elzinha demorou meses preparando sua fantasia de Carnaval, um conjunto de saia curta rodada e blusa de cetim azul com pastilhas de metal dourado aplicadas. O decote de um ombro só era todo bordado com lantejoulas e miçangas acobreadas. Na cabeça, adornando os longos cabelos loiros, uma tiara bordada em pedrarias. Quando se olhou no espelho, achou que tinha feito uma boa escolha.

Nos anos setenta, em uma cidade do interior de São Paulo, como Franca, o Carnaval nos clubes era bastante animado, pois concentrava um grande número de foliões em seus salões, caprichosamente decorados, com o chão forrado de confetes, serpentinas coloridas dependuradas, balões de vários tons, figuras gigantes de arlequins e colombinas suspensos no alto. As fantasias dos dançarinos, por si próprias, enfeitavam e tornavam o ambiente alegre e festivo. As mais bonitas e originais ganhavam prêmios, assim como os blocos uniformizados, formados por grupos de amigos. Um conjunto musical tocava as inigualáveis marchinhas de carnaval, impelindo todos a cantarem a noite inteira até ficarem roucos.

Neste ano, a jovem graciosa, agora com dezoito anos, foi ao baile noturno pela primeira vez. Estava deslumbrada com tudo que via, mas não sabia que era observada por um rapaz alto, moreno, de cabelos fartos, lisos e escuros, alongados até a nuca. Ele usava uma pequena máscara preta ao redor dos olhos o que salientava suas maçãs do rosto proeminentes. Quando ele sorriu para ela, Elzinha encantou-se com aquele sorriso pleno, revelador de cordialidade e franqueza. Ela deu muitas voltas no salão até que ele se aproximasse. Foi no intervalo que eles conversaram e a euforia do Carnaval os contagiou. Quando o baile terminou, acertaram para se encontrar na noite seguinte.

Nos quatro dias de carnaval eles dançaram juntos e ela o conheceu melhor. Admirava seus olhos brilhantes, seus ombros largos, seus braços musculosos. O som de Máscara Negra inundava o salão e ao ouvirem os versos “ não me leve a mal/vou beijar-te agora/ hoje é Carnaval “ eles sorriam maliciosamente um para o outro. No último dia, sentiam-se enamorados. Trocaram endereços, pois ele era de outra cidade e prometeram se corresponder. As primeiras cartas foram amorosas e frequentes, mas logo rarearam e com o tempo nenhum dos dois se interessou em continuar aquele enlevo. E o que parecia ser uma grande paixão, foi mais um amor de Carnaval que acabou na quarta-feira de Cinzas...

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