Amor: algumas verdades dilacerantes

Por: Sônia Machiavelli

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Os crepúsculos são belos mas trazem implícita nota de tristeza pelo fim que explicitam. Por mais bonitos que se apresentem, não elidem a mensagem de finitude. E se despidos de cores vivazes doem mais. Assim a velhice, quando a doença confere gradações de cinza à paisagem das almas, antes que o negro tome conta de tudo.

O filme Amor, que concorre a cinco prêmios Oscar, traça um inquietante retrato da velhice atingida pela doença que aniquila movimentos e lembranças. E, sem memória, o que somos, afinal? A perda da memória, muito mais que a incapacidade física para cuidar do próprio corpo, é o que atemoriza neste filme de verdades dilacerantes, por isso mesmo difícil de se ver. O diretor Michael Haneke não faz qualquer concessão ao romantismo ingênuo das sagas edificantes. Amor é uma história de transformação às avessas. Ou seja, uma narrativa que mostra o processo de decomposição do corpo físico e de desintegração da personalidade; a dificuldade de lidar com alguém que perde a identidade a cada dia; a hipocrisia dos que se arvoram direitos de opinar sobre realidades ásperas onde não querem colocar seus macios pés.

Anne (Emmanuelle Riva) e Georges (Jean-Louis Trintignant) formam um casal charmoso, apesar dos 80 anos. Professores de música aposentados, vivem bem no apartamento que tem a marca de suas personalidades: um piano, livros, discos, quadros, objetos de arte, poucos mas sólidos móveis, tudo de boa qualidade. Nenhum excesso, nada a mais ou de menos, o necessário para atender às demandas de duas pessoas que estão juntas há décadas, tiveram uma filha que está sempre ausente, envolvida com seu marido complicado e um filho ainda mais distante em relação aos pais. Neste cenário clean, onde o casal acaba de chegar do concerto de um brilhante ex-aluno dela, vemos pela primeira vez Anne e Georges antes da catástrofe que vai se abater sobre ambos na manhã seguinte.

Esta palavra tão grega, catástrofe, que tem como sinônimos estrago, agitação, ruína, remete em sua etimologia especialmente para o acontecimento funesto que provoca o desenlace da ação na tragédia. É a que melhor me ocorre quando penso no derrame que sofre Anne à mesa do café da manhã, em sua cozinha tão parisiense e diante de um cardápio idem. Assim, de repente, num segundo, entre uma pergunta e uma resposta que se recusa, instaura-se o desastre. Nosso imenso Guimarães Rosa repetiria: “O trágico não vem a conta-gotas”.

Prenúncio dessa porta arrombada no cérebro, em algum ponto do sistema venoso, também a do apartamento do casal havia sofrido violência horas antes, o que fora descoberto por Georges ao retornar do concerto. Sutil e metafórico, o diretor busca no ambiente doméstico que se transforma em clausura, imagens para o que ocorre intra corpus e entre o casal : torneira aberta, água que se esvai, encanamento entupido, pássaro sem saída, álbum de fotos antigas, sons interrompidos, casacos pesados, névoa que embaça os vidros das janelas.

O ritmo do filme é marcado pelo movimento de Anne e Georges dentro do apartamento que o diretor mostra em longos planos estáticos e crescente número de close-ups. Da cena onde Anne, de volta a casa depois da cirurgia, usa a mão esquerda para se alimentar, ainda mantendo o bom humor com o marido à mesa, até àquela em que Georges dispensa a cuidadora cruel que obrigara a paciente a se olhar no espelho contra sua vontade, esparsos movimentos de câmera vão sinalizando um cotidiano onde o casal dança uma valsa fúnebre. Com passos coordenados George marca uma continência que representa a única e última demonstração de controle diante de Anne e da vida que se esvai cedendo à aproximação rápida da morte, sinalizada por fraldas geriátricas, remédios, mantas, comida pastosa, cantiga de ninar... De cortar o coração a cena onde ele tenta fazê-la cantarolar: “Sur le Pont d’Avignon/ on y danse.../ danse.../danse...” É um grande momento do cinema, que hipnotiza pelo desempenho dos atores, ambos magníficos nesses papéis dens
os, sem nenhuma fresta para o sol que nem há mais. O inverno chegou de forma abrupta para os dois personagens, que já estão mortos quando a história começa. Ao público caberá então conhecer não o por que, mas o como de uma finitude anunciada.

Amor e morte são temas difíceis que vêm sendo tratados de diferentes formas no âmbito da arte e segundo as correntes estéticas a que se filiam os criadores. No filme em questão, morte e amor são vistos pelo olhar incisivo e ultrarrealista de Michael Haneke, que alcança efeitos excruciantes. O desempenho de dois atores extraordinários, na idade de seus personagens, e por isso mais sensíveis ainda ao drama do envelhecimento nas condições em que nos é mostrado, foi decisivo para fazer de Amor um filme do qual não nos esqueceremos pelas verdades que retrata de forma implacável. Ele é duro, surpreendente e difícil. Como muitas vidas.


PERFIL QUESTIONADOR

Michael Haneke

Nascido em março de 1942 em Munique, Michael Haneke é um diretor de cinema que fez poucos mas excelentes filmes, todos com a marca autoral do incômodo e da perturbação.

Estudou psicologia, filosofia e teatro na Universidade de Viena e começou sua carreira trabalhando para a televisão em 1974. Também fez teatro. Sua estreia no cinema deu-se em 1989 com o filme O Sétimo Continente, que criou polêmica na Alemanha pelo assunto: uma família que comete suicídio.

Tornou-se conhecido dos brasileiros por A Professora de Piano, adaptação do romance La pianiste, da escritora Elfriede Jelineck, premiada com o Nobel.

Com o longametragem Caché ganhou em 2005 a Palma de Melhor Diretor em Cannes. No elenco está Juliette Binoche, em história de suspense psicológico.

Refilmou nos Estados Unidos, em 2008, seu trabalho de 1997, Violência Gratuita, tendo no elenco Naomi Watts, Tim Roth e Michael Pitt. O filme dividiu críticos e opinião pública por causa do tema. Na ocasião, respondendo às críticas negativas, disse que “há tanto de mal como de bem em nós, seres humanos.”

Em 2009, no Festival de Cannes, recebeu a Palma de Ouro de Melhor Filme por A Fita Branca, cuja história se passa na Alemanha anterior à Primeira Guerra. Com Amor concorre hoje a cinco indicações ao Oscar: melhor filme, melhor filme estrangeiro, direção, roteiro original, atriz. Todos merecidos, embora entre merecimento e reconhecimento exista um filme chamado Lincoln, de trama muito mais palatável. (SM)


Serviço
Título: Amor
Diretor: Michael Haneke
Gênero: Drama
Atores: Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva, Isabelle Hupert

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