Gilberto, 1936

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Gilberto Araújo, filho de tia Chiquinha, filha de Francisco de Araújo – vulgo Chico Sapo – meu bisavô, pai de minha avó Ritinha. Chico se casou com Maria Cândida na última década do século XIX: tiveram seis filhos. Quando Rita, a caçula, nasceu, a mãe morreu no parto. Circunstâncias tristes: o bebê recém nascido ficou – durante o tumultuado pós parto por causa da hemorragia da mãe, morte, velório e o sepultamento – esquecido num canto, envolto em panos. Dizem que não chorou, esperando paciente como se culpado pela morte prematura. Chico e Didinha, a filha mais velha, tomaram conta dos meninos. Um dia ele se engraçou com alguém e trouxe para casa outra menina, fruto de ligação com linda morena que não quis se casar com ele: Chiquinha. O incorrigível Chico se casou novamente. Mais cinco filhos. Em 1934 Chiquinha se casou e nasceu Gilberto, garoto frágil, que quase sucumbiu a doença infecciosa. Cumprindo promessa Gilberto só pode cortar o cabelo depois dos sete anos: sempre teve aparência e trejeitos femininos por causa da superproteção materna. Cresceu, estudou, formou-se advogado. Brilhante, por sinal. Nunca se casou. Num sábado à tarde, cuidava do jardim e limpava a casa onde morava sozinho (a mesma de sua mãe), quando foi visto entrando em um carro com outros dois passageiros. Estava de short, camiseta, sandália, deixou a casa aberta. Parecia aflito, segundo os vizinhos. Nunca mais foi visto. Nunca mais se soube dele: nem paradeiro, nenhuma informação, nada. Seu desaparecimento é um mistério trinta anos depois de registrado.

(Lúcia H. M. Brigagão)

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