Infância e Liberdade

Por: José Borges da Silva

Não sei porque, ouvindo as histórias da Yoani Sánchez, nas várias entrevistas que a dissidente cubana concedeu aos jornalistas, na sua marcante passagem pelo Brasil, lembrei-me de quando era criança, em Minas Gerais, nos arredores da cidade de Cássia. Àquela época aprendi com alguns amigos a construir gaiolas com ramas de mandioca e taquaras. Às vezes passávamos o domingo inteiro naquela instigante atividade, em que muitas vezes éramos assistidos pelo pai de algum dos meus amigos. E, vez ou outra, prendíamos um sabiá laranjeira, um sanhaço, um pássaro preto do reino. Ver essas belas aves de perto era algo emocionante no primeiro momento. Mas logo aprendi que não devia prender os pássaros pretos do reino, porque além de não cantarem na gaiola, eles morriam com poucos dias de cativeiro. Logo deduzi a causa: eram aves que gostavam de voar e cantar em bandos, espalhados pelos brejos e várzeas dos arredores da cidade...

Pouco tempo depois, ainda antes dos dez anos de idade, abandonei a idéia e a arte de construir gaiolas e fechar passarinhos. Acho que por puro sentimentalismo. Com isso acabei perdendo os amigos passarinheiros, que não entenderam a minha atitude.

Morávamos em uma olaria de onde podíamos ouvir os sinos da matriz e o relógio que ficava mais ou menos no meio da torre. Era emocionante saber das horas o dia inteiro, através de badaladas semelhantes à de um sino. Havia apenas uma ligeira confusão entre meio dia e meia e uma e meia da tarde, porque o grande relógio marcava as horas certas com o número de badaladas correspondentes a cada hora, mas também assinalava as meias horas com uma única badalada. Assim, desde meio dia e meia até a uma e meia, o relógio batia uma vez a cada meia hora, e não era possível saber se marcava meio dia e meia, se uma hora da tarde ou se uma e meia. Claro que à noite a confusão era a mesma, entre meia noite e meia e uma e meia da madrugada. Nesse horário, porém, a confusão não interessava, porque já estávamos dormindo. A bem da verdade, àquela época o tempo pouco importava pra nós. Embora trabalhássemos na olaria, era tempo de infância e não éramos prisioneiro das horas, nem de filosofias, nem de nada. Trabalhávamos e estudávamos e tínhamos tempo de sobra para brincar e correr pelas belas várzeas e colinas da então Santa Rita de Cássia.

Voltando à blogueira cubana e as possíveis ligação da sua visita a fatos da minha infância, acho que já tenho alguma pista. Desde logo devo confessar que notei nela certo desapontamento com os duros protestos que enfrentou no Brasil, apesar do seu sorriso contido e das explicações compreensivas sobre possíveis efeitos colaterais da sua luta solitária pela liberdade do seu povo. Mas acho que foram as jovens e agressivas caras que hostilizaram aquela frágil mulher, que acabaram por trazer do passado distante os sisudos rostos infantis dos amigos que se afastaram de mim quando deixei de construir gaiolas. Eles, como eu, adoravam a liberdade que tínhamos, mas não conseguiram entender o valor da liberdade para as magníficas aves que viviam ao nosso redor. Penso até que por inocência ou, talvez, por influência dos pais, que não conseguiam pensar em pássaros sem gaiolas...

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