Bem-te-vi

Por: Débora Menegoti

203872

Há uma chuva a me invadir. Densa, ácida, inoportuna. Chove dentro. Abre as cortinas da alma e evidencia janelas. Sinto prazer em me lavar dessa água me despindo. Me expõe nua, me dilui. Ficarei constrangida depois de revelar minhas formas sob roupa ensopada quando ela cessar. Quando vem, arrasta a mobília, revira folhas secas pelo chão, pede licença pra chover em paz. Lava os lençóis empoeirados de meus sonhos, embala o sono e os compassivos medos com seus sons de furacão, de mel pingando do favo com cadência.

Aqui hei de acolher com frescor e ternura; ofereço chá de hortelã fervido em água da chuva com bolo de fubá e anis. Um jeito de agradar a memória da água que me transborda.

Parece que foi há poucos minutos. O ballet pluvial esparramava nossas coisas coloridas pelos cantos, enfeitava a casa, era uma quermesse dentro do peito. Dancei molhada, a vergonha ida; os pés descalços no barro... Sou brisa não raiz e chovemos para o lado de fora. A chuva foi barrada por vento. Era mesmo coisa, parte dela, como se fosse um braço, a chuva seria também o vento. A chuva se transvestiu, transmudou-se vento, vento foi. Ventamos. Livre que era, viu-se dono do meu mundo de brisa, esqueceu-se o princípio das coisas sólidas. Pôs tudo abaixo, pra depois deter-se num tronco de árvore tombada, quando já cansado de sua majestade, ventava baixinho ao procurar bichinhos coloridos debaixo das folhas. Ao lado do tronco inocente criança brincava agachada de arrancar lasquinhas. Você pareceu assustar-se com ela, se escondeu dentro do tronco, sumiu ali. A madeira te assimilou e lá estava você, sentindo prazer inigualável pela proximidade inofensiva da criança e pelas coceguinhas que causava aquilo dela lhe arrancar casquinhas. Ela te limpava do que já era morto. Só não saberia disso se fosse bronco, ao invés de tronco, mesmo. Nem chuva, nem vento, nem madeira dormida alheia aos cuidados da menina; era casca, era lenha pra brincar de cabaninha. Aqui, fogo agora, se alastrando dentro e fora. Ora e outra espirra estrelinhas contentes no ar para enfeitar mais ainda sua resplandecência de brasa. Cresce até o firmamento, leva nossas preces ao céu ao espreguiçar-se. Não mais fogo de casca, és bicho preguiça, meu bicho do mato preferido. Venha, nos dê a mão, nos prenda em teu fofo de bicho. A minha criança pede pra ver acender um fósforo, tenta desvendar o fogo. Observamos o luar enquanto ela brinca de montar. Três partes de encaixar esquecidas no chão. Ao unir as peças revelaram-me oposta epifania, claridão. Há um sol a nos invadir. Há uma aurora fecunda, terna e oportuna de nuances distintas. Acordem! Já é vida! Há um espetáculo no céu e um passarinho a me roubar as palavras.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras