Velho é velho

Por: Chiachiri Filho

Dizem que, ao ultrapassarmos os 60 anos, entramos na “terceira idade”. Alguns, mais otimistas, afirmam que é a “melhor idade”. Melhor? Melhor mesmo? Melhor nada. Depois dos 60, o cidadão ou cidadã, já devidamente aposentado, vive dos proventos da inatividade. Proventos que vão se reduzindo ano após ano. Recebendo, ao aposentar-se, alguns salários mínimos que, em pouco tempo, serão reduzidos a um mínimo salário que mal dá para viver . O que se faz contra o aposentado brasileiro é um verdadeiro crime: ele é esbulhado, assaltado, discriminado, excluído. Para completar, passa por ser o culpado de grande parte do déficit nacional. E não adianta fazer greve ou passeatas de protestos. São atitudes inócuas que não mudam a ordem natural das coisas. Mas não param aí os tormentos da “terceira idade”. Não podem comer sal por causa da pressão, nem açúcar por causa do diabetes, nem as gordurinhas em virtude do colesterol. Em suma, não podem comer como dantes. Beber? Só água mineral. Nada de destilados, nada de fermentados.Tabaco? Nem sequer um cigarrinho depois do almoço.

Se correm, cansam e têm caimbras. O jeito é andar devagar e sem rumo.

Se dão sua opinião, com base em sua experiência sobre determinado assunto, logo são repreendidos pelos mais jovens com um:

— Chiii! Isso já era.

Velho é velho, prezado leitor. Sua vida é monótona e sem graça. Suas horas de paz, sossego e tranqüilidade passam-se na cama, dormindo o sono dos justos. No entanto, se ao acordar, puser os dois pés no chão sem sentir nenhuma dor ou incômodo, é porque, segundo observadores perspicazes, já passou desta para melhor. Talvez aí esteja a explicação para a expressão “melhor idade”. É “melhor” porque está bem próximo de uma outra dimensão, dimensão em que o espírito desgruda-se de um corpo pesado, roto, enfraquecido, achacado e velho.

Ao velho resta a capacidade de recordar. E, segundo os sábios, recordar é viver. Viver da melhor forma possível. Viver relembrando-se das boas coisas de sua vidda: as boas mulheres, as boas comidas, as boas bebidas, os momentos de fama, de glória, de alegria. É por isso, prezado leitor, que você ainda pode encontrar pelas ruas e praças da cidade, velhinhos felizes, sorridentes e assanhados.

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