Penas

Por: Eny Miranda

Avistei-a no vaso de samambaia, quase toda encoberta pelas frondes. Protegia e aquecia seu ninho - que não se pode chamar de obra de arte.

Quando comparadas aos colibris, que erguem os minúsculos, resistentes e confortáveis ninhos com teias, líquen, pétalas e paina interligados com saliva, ou aos alfaiates, que preparam os seus dentro de uma bolsa feita de folhas vivas, cujas bordas eles mesmos costuram com fibras vegetais e seda de teias de aranha, as rolinhas não parecem exímias tecelãs: seu ninho é, quase sempre, um amontoado de gravetos alinhavados, parecendo dispostos aleatoriamente; vigas e pilares alvoroçados, sob a quietude da incubação. É, todavia, um ninho, um abrigo, um seio de cria e aconchego - útero gerado e gerenciado pelos pais, que pacientemente se ocuparam da busca de matéria-prima para o seu preparo.

Talvez por ter adivinhado em mim sua mesma condição de mãe, não esboçou nenhuma reação à minha presença, a não ser pelos olhinhos arregalados a me fitarem, aliás, como os de qualquer rolinha. Não pude ver quantos eram os ovinhos, nem insisti em fazê-lo. Tentei ser discreta, respeitar aquela criaturinha, tão só em sua função maternal. Como dizia o Poeta, “é bom estar só, quando companhias sutis nos embalam”.

Essas companhias sutis, de tão sutis, talvez ainda nem tivessem forma, contudo já a embalavam.

Eu que ultimamente venho passando pelo incômodo de calhas entupidas por ninhos abandonados, plantas danificadas - pelo mesmo motivo e por falta de rega (tememos regá-las e prejudicar o desenrolar-se da criação) - criei asas e emplumei-as bem antes de os filhotes saírem dos ovos. Tinha pressa.

Meus voos se fariam sempre daquele ninho para o mundoafora, embarcados no humano, ancestral sonho de navegar por outros oceanos, pés longe do chão e das águas, em estado de leveza e liberdade.

Todas as manhãs ia apreciar o desenvolvimento da cria e imaginá-la em suas (nossas) incursões pelo azul - tímidas, inseguras, a princípio, e, pouco a pouco, audaciosas aventuras pelo mais longe, o bem longe, o perder de vista.

Acompanhei a quebra dos ovinhos, os pios, os bicos desmesuradamente abertos, à espera do alimento que mamãe diligentemente providenciava; o surgimento da penugem e das penas.

Das penas, principalmente.

Já estavam quase prontos. Brevemente levantaríamos voo - eu neles, eles em mim - verdade e quimera entrelaçados mundo afora.

Hoje, minhas asas se quebraram, antes mesmo de as deles alçarem voo. Desapareceram como duas bolhas de sabão tocadas por matéria densa.

As penas espalhadas pelo chão e pela alma, o ninho vazio - e também o coração - me contaram, tristes, que o primeiro aprendizado daqueles alados filhotes teve gosto forte e amargo. Sua primeira visão fora do ninho não foi a do voo para a liberdade, mas a da implacável - e necessária - cadeia alimentar; a natureza roendo seus próprios bens e os sonhos do homem, metamorfoseando vida em morte e, ao mesmo tempo - e consoladoramente -, morte em vida; devaneio em terrena realidade: tudo o que existe provém de matéria preexistente.

Aprenderam na crueza da tenra carne - e a mim relembraram - uma das mais duras lições do mundo: a da fragilidade e efemeridade da vida.

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