Quase respostas

Por: Lucileida Mara de Castro

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Meu filho vem em minha direção repetindo o mesmo gesto que já vi bem mais que uma centena de vezes. Traz um livro fechado entre suas mãos como o estivesse acariciando e diz: – Acabei o livro! Na sequência, relata animado e detalhadamente o que mais o impressionou. Somos muito cúmplices nisso. Muito amamos ler, muito amamos os livros.

Acabara de ter o seu primeiro contato com Jostein Gaarder ao ler A Garota das Laranjas. Vinha com um olhar diferente, vinha mais reflexivo, um pouco mais maduro. Perguntou-me: – Se você tivesse a chance de escolher entre vivenciar um instante sabendo que iria perder tudo e entre dizer não, o que faria? Estou falando de viver, amar, conhecer pessoas queridas e depois perdê-las. Se não nascêssemos, não sofreríamos, não é mesmo?

Conversamos preciosamente sobre o assunto. Na verdade, filosofamos. Falamos sobre a dor das perdas e sobre como é difícil ao ser humano encarar a fragilidade da nossa espécie. Por mais oportunidades, cuidados, recursos que se tenha, existe essa determinação inexorável da vida em dar espaço à morte. O instante da existência passa, como um raio, como um filme, romântico ou realista – dependendo dos óculos de cada um.

Há, nessa questão, um quê de predestino. Por isso mesmo, a sabedoria popular tratou de inventar ditado ensinando que a morte é certa. E se assim o é, porque nos afligirmos e nos preocuparmos com ela? Tardando ou não, ela chegará, democraticamente, ela chegará...

Voltemos à pergunta de meu filho... Tenho pensado longamente sobre as possibilidades que ela me trouxe. A cada dia, derramo meus olhos sobre as pessoas com as quais convivo e não consigo pensar em um mistério maior do que a vida. Em cada uma delas, existe um mundo, um universo, uma rede extremamente complexa de emoções, determinações, crenças, capacidades, incapacidades, condições físicas, existenciais, morais, intelectuais, espirituais e éticas. Em cada uma delas, existem possibilidades e histórias que se escreveram a partir de escolhas, das determinações da vida, das coincidências, do acaso, das construções e do trabalho de cada uma. Há sonhos, frustrações, temperamentos tão diferenciados...

Encontramos-nos para a Ceia da Vida e vamos, aos poucos, despertando o olhar dos outros sobre nós, enquanto também os espiamos com um olhar curioso. É como se janelas se fossem abrindo e delas fôssemos espreitando espaços de conforto emocional: um gosto de conversar com um; aquele gesto de compreensão do outro; as risadas e a alegria de meu vizinho; o mesmo amor pela música; o mesmo desatino diante da existência. Quantas são as razões para os laços que nos unem aos outros? São tantas e tão plurais. São elas do mesmo número que a fome de nossa alma: infinitas!

Ao aceitarmos as inquietações trazidas pelas provocações de Jostein Gaarder e acolhermos suas interrogações, precisamos aceitar o jogo de nos encararmos e procurarmos em nós mesmos, as possíveis respostas. Há os que preferem fugir para o lado iluminado da Lua. Há os que procuram, desesperadamente, negar a sua fragilidade por toda a vida. Há quem diga que vivemos tempos difíceis. Não sei. Temo que o tempo de todos os homens tenha sido difícil. O que muda é o olhar.

A experiência compartilhada é tão mais plena... Assim, abro as janelas de meu mundo e passo a espiar. Talvez outros me ajudassem a encontrar resposta melhor do que a minha para a questão com a qual nos deparamos. Pensei em Paulo Mendes Campos que em “Para Maria da Graça”, uma belíssima crônica escrita para jovem que chegava à idade avançada de 15 anos, escancarou o mistério da vida ao aconselhar – Escuta: se não descobrires um sentido na loucura acabarás louca. Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas. Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade. A realidade, Maria, é louca.

Não haveria, portanto, sentido racional na realidade e, por conseguinte, na vida? Teria o olhar surreal de Dalí enxergado o espelho da vida? Quem saberia dizer?

Eu já me perdia em labirintos em buscas por respostas, quando ouvi a conclusão a que chegou meu filho: – Sabe, acho que quem tem razão mesmo é o Vinícius de Moraes. Serve para a vida o que ele diz sobre o amor “Que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure.

Pois é...

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