O funeral

Por: Raphael Ferreira Lopes

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‘De vez em quando a eternidade sai do teu interior e a contingência a substitui com o seu pânico. São os amigos e conhecidos que vão desaparecendo e deixam um vazio irrespirável. Não é a sua ‘falta’ que falta, é o desmentido de que tu não morres.’
Virgílio Ferreira.

Atravessamos a rua, a noite chegou. O barulho é menor. Menos estridente, mais surdo. As lâmpadas avermelhadas se acendem. Na rua a multidão movimenta-se em todas as direções, lenta ou rápida, abrindo caminho, sarnenta como cães abandonados, cega como mendigos. Caminham todos juntos sem jamais demonstrar impaciência, aquele modo de estar só no meio da multidão, sem alegria, pode-se dizer, sem tristeza, sem curiosidade, caminhando sem parecer ir a lugar algum, sem intenção de ir, mas apenas avançando, mudando de lugar, isolados e no meio do povo, jamais sozinhos de verdade, sempre sozinhos no meio da multidão.

— Ei, amigo, levante-se! O funeral está passando... É preciso saudar aquele que se vai. É preciso honrar aquele que venceu essa nossa existência vestal.

— Por que partiu tão cedo?

Aquele amigo tirou o chapéu e esperou por minha resposta:

— Há pessoas que vivem com tanta intensidade, com tanta sinceridade, que esgotam a sua vida não sendo mais necessária a sua permanência entre os que aqui habitam. “Os bons morrem jovens, assim parece ser, quando me lembro dele que acabou indo embora, cedo demais. Dias assim, dias de chuva, dia de sol e o que sinto não sei dizer, vai com os anjos, vai em paz”.

O Funeral estava passando, em uma noite de chuva, todos seguiam , seguiam os passos daquele que descansava em seu leito de morte. Ali se esgotava a sua vida, mas não esgotava a sua história; ela está escrita na mente de todos aqueles que compartilharam momentos inesquecíveis.

— Lembra quando ele pensou que tudo era para sempre? Mas o para sempre, sempre acaba... Ele está indo de volta para casa.

— Ele estava cantando, sorrindo, e brincando , como sempre fazia, alegrando a todos em sua volta quando disse que tudo era para sempre. Mas ele estava cansado, ele está indo para casa, respondi para aquele velho companheiro.

Uma lágrima escorreu pelo seu rosto e subitamente disse:

— Todas essas lágrimas que caem são para lavar a sua alma de todos os erros cometidos, de todos os sonhos não realizados, são a última demonstração de carinho daqueles que o amam. Depois restarão apenas as lembranças, e elas se eternizarão no espectro de nossa existência.

O Funeral estava passando, em uma noite de chuva, todos seguiam , seguiam os passos daquele que descansava em seu leito de morte. Ali se esgotava a sua vida, mas não esgotava a sua história; ela está escrita na mente de todos aqueles que compartilharam momentos inesquecíveis.

—Um dia sentado ao meu lado ele disse ‘vamos rir da vida, vamos rir da morte, vamos além; não importa se um dia eu estarei velho, rico ou pobre, o que importa é que eu vivi intensamente todos os momentos, sonhei e nunca deixei de sonhar. Um dia meu filho olhará a sua foto e me perguntará quem é você, e eu direi: era um amigo, que como, eu, sempre embarcou em uma jornada de sonhos e conhecimentos.’

Disse aquelas palavras vendo aquele momento repetir-se, aquela ilusão de que ele estava ali. Breve ilusão porque ele estava ali, ele estava em meu coração.

— Ei, amigo! Levante-se, o funeral passou. É preciso dizer adeus àquele que se foi. É preciso marcar em sua lápide que todo fim é um começo, que tudo é para sempre sim, que nos livros de história seremos a memória. Vamos sorrir, vamos cantar, vamos relembrar os momentos com aquele que se foi, vamos transformar esses momentos em uma luz eterna que brilhará pelas noites escuras daquele que em outrora deixou o seu leito de morte para chorar pela vida e rir dela mais uma vez.

Uma aurora anunciava o nascimento de mais um dia, e lá estava ele de braços abertos para abraçar a vida, porque ela não é para ser compreendida e sim vivida. E lá estava ele correndo pelas nuvens, fazendo melodias com a chuva, teatro com Sol, esgotando-se em mais uma vida, em mais uma vida eterna.

— Ei, amigo! Vem, vamos embora. Eu levantar-te-ei, seque suas lágrimas, abra um sorriso, e admire o sol nascente, a água corrente, a flor que nasce, e a lua que lhe aguarda no final da tarde. Essa é a vida, então vamos esgotá-la, vamos vivê-la.

Uma rosa foi deixada ao lado da lápide daquele que se foi, e lá estava escrito:


É preciso rir da vida
É preciso rir da morte
A vida só merece ser vivida se ela for esgotada em um só momento


É preciso ter péssima memória, porque “a vantagem de ter péssima memória é divertir-se muitas vezes com as mesmas coisas boas como se fosse a primeira vez”.

Dedico esse texto a todos que perderam pessoas queridas cedo demais!

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