Os Intocáveis

Por: Vanessa Maranha

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É quase sempre imprecisa a comunicação visual das caixas de DVDs e Blu-Ray nas locadoras de filmes.

Não são poucas as vezes em que, não sabendo o que alugar, nos deixamos seduzir por capas deslumbrantes, traduções sofríveis, chamadas curtas e adjetivosas recortadas de resenhas de jornais: quando vêm do NY Times, então, é o passaporte da qualidade presumida.

Outras vezes, buscamos os filmes por referências, críticas, pelo histórico do diretor, pelos prêmios. Mas, isso também pode falhar e nos colocar diante de filmes insuportáveis, simplesmente porque toda apreciação é extremamente subjetiva.

Nesse clima de não-saber-o-que-levar me veio o filme Os Intocáveis (Intouchables), dos diretores franceses Eric Toledano e Olivier Nakache, por sugestão do meu marido. À sinopse, arremate para as pré-conceituações das quais não se escapa, imaginei um roteiro arrastado, batido, açucarado, próximo do “cinematográfico” norte-americano; mas havia o contraponto de se tratar de comédia, e comédias francesas costumam ser interessantes.

Já era tarde da noite quando nos pusemos diante da tela e concordamos que, a depender do ritmo, o veríamos em duas partes, a outra para o dia seguinte.

Mas, grande surpresa, o que se seguiu foi um filme deslumbrante. Não, não se trata de cinema-arte; tampouco traz ousadias estéticas; sequer alguma experimentação de linguagem, como as dos escandinavos e argentinos que entediam alguns, mas ainda e tanto agradam ao meu formalismo renitente. Trata-se daquele tipo de filme aliás, grande sucesso de bilheteria na França - cheio de redenção e que nos agarra não pela compaixão evocativa ou pelo otimismo que não tenta rasurar, mas por sua viagem humana; pela mostra do quão transformador pode ser um encontro. De acréscimo, é uma bonita crônica parisiense multicultural, que sugere, com a leveza possível, a questão sociológica da imigração na França.

É a história de Phillipe (François Cluzet, ator de expressividade tocante), um aristocrata viúvo e tetraplégico que busca um cuidador que não o trate “piedosamente”. À triagem, hilariante, surgem vários candidatos qualificados e certificados, os quais vão sendo descartados pelo empregador.

O mais improvável deles, o imigrante senegalês Driss (Omar Sy, premiado com o Cesar por sua grande atuação) com ficha criminal e que “fura a fila” deixando claro que ali só estava buscando uma assinatura para ingressar no seguro social será o escolhido para o período de experiência, inclusive após furtar um dos vários ovos Fabergé do milionário para presentear a tia, que repudia o objeto ao qual não sabe aferir valor e chama de “ovo de Páscoa”. O que se de-senrola é um contato encantador, cheio de entraves e esbarrões, choques culturais em amplitudes opostas que se harmonizam e se complementam de forma intensa. Uma história de afeto e amizade e, por que não?, de cura mútua.

Dele, sobretudo, é possível retomar a premissa básica, sempre relegada, contudo, de que muito pouco é de fato o que aparenta (ou tenta aparentar) ser.


TOLEDANO & NAKACHE

Boas Parcerias

Bons encontros fazem diferença também na arte cinematográfica. Sorte do público, brindado com trabalhos muitas vezes admiráveis como Os Intocáveis, que Vanessa Maranha resenha nesta página. O filme ganhou a simpatia do público europeu, americano, latino e arrecadou em um ano 500 milhões de dólares, algo incomum.

Éric Toledano e Olivier Nakache são cineastas franceses na casa dos quarenta anos, que já fizeram muitos filmes juntos, desde o primeiro curta, O dia e a noite, de 1995, sobre um médico que adora a vida noturna. Quatro anos depois, foi a vez de se tornarem mais visíveis com Os sapatinhos, um tipo de crônica sobre a jornada de atrapalhados papais-noéis. O primeiro longa, Prefiro que continuemos amigos, data de 2005 e teve como protagonistas Gérard Depardieu e Jean Paul Rouve. Também no gênero comédia, Toledano e Nakache realizaram o que viria a ser grande sucesso de bilheteria no verão europeu de 2009: Estes dias felizes. Entre os dois últimos títulos filmaram o roteiro de um terceiro cineasta, Tão próximos, que não alcançou o sucesso esperado. A dupla resolveu então retomar seus projetos nos moldes com que vinha trabalhando. Foi quando os dois cineastas partiram para Os Intocáveis, convidando para os papéis centrais François Cluzet, o aristocrata paraplégico Phillipe, e Omar Sy, o imigrante argelino de subúrbio parisiense Driss. Sy revelou-se ator de grande potencial para a comédia e disse em entrevista ter-se identificado imediatamente com o personagem: “Driss é quem eu sou, o que sei e sinto. Cluzet, ator extraordinário com quem adorei contracenar.” Ex-presidiário na África, Sy dá um banho de interpretação. Toledano &Nakache &Cluzet &Sy são exemplos de que parcerias criativas rendem sucessos memoráveis.

Serviço
Título: Os Intocáveis
Nacionalidade: Francesa
Ano: 2012
Diretores: Eric Toledano e Olivier Nakache
Gênero: Comédia
Onde encontrar: Nas locadoras

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