Insônia

Por: Hélio França

Minha alma despertou na madrugada junto comigo, perdemos o sono, fomos até a cozinha aliviar a sede e saímos para o quintal. O ar estava fresco, porém seco, próprio de um outono sem chuvas. Olhei para cima. Sem nuvens, o firmamento mostrava centenas de pontos luminosos, uns mais outros menos, porém todos infinitamente distantes da minha compreensão de simples mortal. Entrei novamente para buscar uma blusa que nos agasalhasse e ficamos lá fora, eu e minha alma a ouvir o silêncio. Não dissemos qualquer palavra audível, não trocamos ressentimentos e nem nos elogiamos, apenas compreendemos a necessidade de ficar em silêncio por ser esta a melhor maneira de haver uma reciprocidade de entrega dos segredos, dos sonhos e dos desejos, todos eles confessáveis, externados de modo simples, sem reservas, desprovidos de mentiras ou maquiagens extravagantes.

Assim ficamos por mais de uma hora, se bem que o tempo não fazia sentido. Não estávamos presos ao andar dos ponteiros de um relógio, mas ao caminhar do rastro de luz de uma lua cheia magnífica. Houve questionamentos sucintos entre nós, mesmo em silêncio, houve. Entre outros, imaginei por que razão ela ficava mais sensível nesta fase da lua, seria pelo esplendor do astro totalmente iluminado ? Mat éria física apenas ?

Lembrei-me de que para Santo Agostinho, o grande filósofo e doutor da igreja, a alma se confunde com o pensamento, e sua manifestação é o conhecimento, onde, por meio deste, ela ama a si mesma.

No âmago desta lembrança conciliei-me com a solidão e todas as trevas da dúvida se dissiparam. Então demos as mãos, eu e minha alma, sonolentos já, porém muito mais satisfeitos com essa distância, agora tão próxima, tão verdadeira e tão nossa...

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