Desfecho de Pandora

Por: Débora Menegoti

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Do Mirror Mask

Vagando solitária Pandora em versos sem rima, vinha vestida de algodão, feito fada em tons de azul e lilás serenos.

Era proibido que ela acordasse e não soubesse o que fazer com o que aprendeu, sem saber se foi justo ou bom. Proibido ter medo.

A terra das esperanças é árida sob seus pés secos de besta apocalíptica, é a certeza de trás pra frente. Arisca, lisa, escorregadia, gelatinosa a pingar pelos dedos das horas, dos dias e dias continuamente. Já, há quase uma década, agora.

Não há pretensão de transportar sonhos de uma frívola juventude cheia de felicidade clandestina. Sonhadora, regava árvores de louro achando colher ali peras, damascos, brincos de primavera, flores de maio e pitangas para uma boca singular. Ainda mais míope enxerga teus erros, enxerga como se os visse no reflexo do espelho refletido após o banho. Sensibilizou-se tarde da vida, repeliu outros olhos, outras danças, bocas, braços, mergulhos, não pode mais comer legumes em bandejas de inox; quando vê mandioquinha salsa sua garganta se fecha, arde os olhos, enfumaça dias. Espantou os sabores desvairados que frequentava. Tem nojo de si ainda ora ou outra.

Pandora tempera teus pratos sóbrios, a tua carne, que serve agora quente, em folhas de bananeira, como se fosse possível ofertá-los a ele. Não mais a esperança doce e triste inventada outrora, mas em outros verdes, das flores noturnas. Serve-se escravizada eternamente em colher para mamão com açúcar para aquele anjo-porco-espinho, que não virá.

Mas segue seu espírito: é proibido não amar. Assim ainda ama, muito embora carregue uma casa de joão-de-barro no peito em sombras de um amor telúrico, apertado entre angústias, como a comer banana verde, como se estivesse constantemente rouca, aflita, falando sozinha pelos cantos, levada na maca da vida, sem forças para ouvir pega de assalto a palavra: ‘mononucleose’, dolorosamente proibida.

Não há palavra para seu arrependimento. Nem choro que console o desabafo que se difunde sem dimensão de qualquer poder para averiguar o que saiu de sua caixa. Sem saber ao certo o que foi e o que ainda é. Às vezes ela pensa que a caixa só existiu porque havia certa graça em ver que havia quem acreditasse nela. Sei que Pandora recorda os cuidados daquele anjo preocupado com a vida de sua forma não mansa, mas decorosamente encantada. Ele a salvou da morte; ele lhe deu a vida, mas ora ou outra brincava tirando dela o coração e colocando em seu lugar a caixa encantada para enfeitá-la.

A memória se cristalizava novamente no peito agora: o formato das mãos, unhas, os dedinhos dos pés, as voltinhas deles e o sabor (solidificados em sua mente como se palpáveis, como se pudesse tocá-los, beijá-los, cheirá-los. Neste mesmo instante); a voz, a risada, aquele gargarejar após escovar os dentes... Aos poucos o timbre das lembranças vai se perdendo, mas não fenecem, não se apagam. Não há arnica para alma. Emudecerão? Talvez. Como fóssil estéril intrapele ou como meteoro no rim, certamente um dia.

Pandora sabe beber grandes goles da ausência, como quem bebe cicuta adoçada, diluída.

Pandora enverga e vê por dentro do anjo a mácula do amor.

Arrancam a casca de sua ferida mal cheirosa ao dizerem sem compaixão que “é proibido sentir saudades sem se alegrar”. E a dor mostra que ainda em vida é viva. E proibições não mais a provocam. Pandora pede a Deus que renegocie sua alma com Satã, quer voltar pra casa.

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