Quatro estalos e uma saudade - final

Por: Everton de Paula

Os adjetivos que se prestavam a qualificar Lúcia Gissi Ceraso sempre foram superlativos. Nacionalista ao extremo, em época de Jânio e Jango, criou e dirigiu o programa Uma Hora em Comunhão com a Pátria. Envolvia alunos e alunas do colegial e soldados do Tiro de Guerra. Passava o ano, durante as aulas de música, no salão do IETC, martelando as teclas de marfim de um velho Zimmermann, ensaiando as músicas da apresentação. Meninos de um lado, meninas de outro e toca a cantar “Oh, grande herói da liberdade...”, “Ioiô tá vendo nega veia aqui sentada...”, “Nós somos da Pátria a guarda...”, “Estou quase maluco pra ver meu Pernambuco...”. “Onde vais tu, esbelto infante...”, “Tranquiliza-te mãezinha, sei que vais ficar sozinha, porém não chores assim...”, “Cidade maravilhosa, cheia de encantos mil...”, “O meu chapéu de paia, que é pro sol não me queimá...”, “Se a Pátria querida for envolvida pelo perigo...”, “Qual cisne branco em noite de lua...”

Aquilo não acabava mais. Cada Estado do Brasil, cada força armada tinha sua canção cívica, a sua bandeira, as meninas com vestes típicas regionais... Aliás, acabava sim, durava precisamente uma hora, nem um segundinho a mais ou a menos. Não sei como ela conseguia isso. Só sei que todo mundo queria participar. Uma Hora em Comunhão com a Pátria talvez tenha sido a última manifestação cívica francana em época de democracia, antes do governo militar. O público lotava os auditórios e delirava com a apresentação colorida, festiva, nacionalista, otimista, ingênua... Dona Lúcia ganhou notoriedade.

Nessa época ganhei um piano, Pleyel, de uma tia paterna. Iniciei meus estudos particulares de piano exatamente com dona Lúcia Ceraso. Era vizinha à nossa casa e dava aulas também no Ateneu Francano, colega de meu pai. Não sei explicar como, mas ganhei-lhe a simpatia; talvez pelo meu gosto à música, talvez pela caligrafia musical, pelas boas aulas de piano, talvez ainda pela clareza do meu solfejar. Dona Lúcia tinha por mim um carinho especial, e isto me incomodava bastante diante dos colegas de classe. Às vezes, era eu que tocava piano nos ensaios do salão do IETC. Estranho fardo! Dona Lúcia (sempre polêmica ou se gostava dela ou se a odiava!) nem por isso deixou de me perseguir, igualmente perseguia os alunos endiabrados daquela saudosa escola, porque o IEETC de hoje não é nem a mínima sombra do romântico e inesquecível IETC da década de 1960. Quantas e quantas vezes, na quadra de esportes, fazendo ginástica às sete horas da manhã, sob o comando do professor Pedroca, aparecia dona Lúcia e me convocava para um ensaio musical. Vexame! Corria ao precário vestiário, tomava uma ducha fria, vestia correndo o uniforme cáqui e ia apressado ao salão. Os meninos me olhavam enfurecidos, as meninas, ah, estas, piscavam longamente... Belos tempos, saudosas memórias!

Meninos, meninas... Ah, agora me lembro, eu estava contando uma história ocorrida (há testemunhas vivas, oculares!) na sala de aula. A cadeira sobre os estalinhos de salão, lembram-se? Sim, eu sei que vocês se lembram, eu é que não estava me lembrando.

Bem, o Godofredo empalideceu, a classe calou-se, o mundo parou de girar e em vez de empurrar a cadeira, dona Lúcia sentou-se abruptamente sobre ela. Quilos e quilos de pura energia e braveza! Os mais de quinze estalinhos produziram, em cadeia, quatro estalos de arrepiar. O barulho que se fez foi ouvido até pelo Major, que andava meio surdo, o pobre bedel.

A classe toda fez bico de u, arregalando os olhos, encolhendo os ombros, naquela de querer fugir e não podia.

Para espanto de todos, dona Lúcia manteve-se absolutamente calma, inesperadamente no controle da situação, enquanto a fumarada da pólvora subia aos seus cabelos. De maneira elegante e metódica, bem devagar, cada gesto muito bem estudado, abriu o diário de classe e começou a chamada. A coisa foi mais ou menos assim:

- Ana Maria!

- Presente!

- Zero!

- Alfredo!

- Presente, dona Lúcia!

- Zero!

Até que chegou o meu nome. A danada sabia por intuição ou bruxaria que eu era o líder da coisa malfeita. E seguiu:

- Everton!

- Presente!

- Zero e já para a diretoria.

E assim foi até a Zenaide. Todos levaram zero após uma semana copiando o Hino Nacional Brasileiro trinta vezes! Na minha caderneta escolar já havia uma repreensão, uma admoestação verbal, uma suspensão de três dias e agora cabia uma suspensão de cinco dias, com a assinatura do pai. Se eu aprontasse mais uma, seria expulso do IETC, talvez expulso de casa e da cidade. Por isso, o resto do ano escolar passei como um anjo de igreja, daqueles que só olham para a frente e não mexem um único músculo sequer!

Passaram-se três anos. Veio o governo do marechal Castelo Branco. 1966. O Colégio Nossa Senhora de Lourdes cedia seu palco para mais uma apresentação de Uma Hora em Comunhão com a Pátria. Seria a última apresentação anunciada. Agora eu era aluno de piano de outra Lúcia, a Garcetti. Encontrava-me na platéia. Um pouquinho, mas só um pouquinho mais amadurecido. Quando se chegou à apoteose, com música de Carlos Gomes, o público já aplaudia de pé. Dona Lúcia levantou-se, agradeceu, apresentou os participantes e disse exatamente o seguinte:

- Senhoras e senhores, colegas, meus amigos, meus queridos alunos, soldados e autoridades do Tiro de Guerra 02-018 de Franca. Minha saúde já não permite longo discurso, mas meu coração, minha alma desejam que este programa continue, sem mais a minha direção. Assim, a partir de hoje, passo todas as partituras, todos os controles, todas as bandeiras e a própria direção para um aluno que se destacou dentre os demais na Música e em Português. Convido para subir ao palco e receber esta missão o meu querido aluno Everton de Paula!

Gelei na poltrona. Estava sozinho. Mas como? Eu? Logo eu que tantas havia aprontado em suas aulas? Logo eu que duvidava da sanidade mental daquela professora? Veio-me um nó na garganta. Subi ao palco. Recebi as honrarias. Aplausos e esperanças do público presente na continuidade do programa. Após o término de tudo, dona Lúcia abarrotou sua picape de bandeiras e partituras e me levou para casa. Estava dócil, atenciosa, emotiva.

Eu só sabia agradecer, um agradecimento mais de susto que de mérito. Imaginem o que ma caía às mãos e à minha responsabilidade.

Veio a Copa do Mundo no México. O Brasil sagrou-se tri-campeão. Terminei a faculdade. Morei na França. Voltei ao Brasil. Dona Lúcia morreu. Aos poucos tudo foi se diluindo, transformando... Vejo hoje, num canto de minha biblioteca, as bandeiras, as partituras dentro de um plástico, os controles, as marcações da criação cívica de dona Lúcia, e nunca me julguei capaz de reproduzir aquele espetáculo, por uma simples razão: dona Lúcia Gissi Ceraso seria para sempre ímpar, única, insubstituível, amada, odiada, idolatrada, polêmica, inesquecível, abençoada mestra! Eu nunca consegui acumular tantos adjetivos contrários até aquela idade. Reapresentar tal programa cívico seria o mesmo que desmontar um ícone, com toda sua idiossincrasia maluca mas amorosa.

Saudade!

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