A visita

Por: Eny Miranda

‘Como as borboletas se precipitam para a sua morte na flama brilhante, assim os homens correm para a sua perdição’

Bhagavad-Gita (11,29)

Estou sozinha no quarto, nesta cidade que não tem dois milhões de habitantes; contudo, como o Poeta, estou sozinha na América.

A noite entre paredes isola o homem e amplia o mundo. Os olhos desistem de olhar: não alcançariam meio metro sem o estímulo da luz, mas os ouvidos abrem portas e comportas para o mundo ampliado; no escuro, registram um suspiro a quilômetros de distância. Assim, logo captam um ruído fosco que se agita no espaço. Vindo de onde, nesta cidade, não de dois milhões, mas de centenas de milhares de almas? Nesta América em que me encontro?

Outros ruídos, mais nítidos, semelhantes ao primeiro, denunciam presença viva, e próxima. Pisco, forçando a acomodação dos olhos, e então diviso uma réstia de claridade, minúscula, e atrevida, esgueirando-se quarto adentro, através de pequena fresta na janela. Parcamente iluminado, mas visível, ali está o motivo desses sons: um ser quase negro e, agora, imóvel. As grandes asas, abertas, indecifráveis, ‘presa[s] na zona de luz’. Sombrio, obscuro, nele não há olhos perceptíveis - mesmo que rasos, sem pupilas - que ancorem outros olhos, que interceptem e retribuam deles as emanações, ou que os reflitam; que se deixem encarar ou questionar; entretanto, habitante da noite, espreita - e aninha - silêncio e solidão. Cego ou plurividente, este ser que dispensa olhos e ocelos? Afinal, no escuro, ‘os olhos desistem de olhar’, mas mil outros foramens se abrem, sensíveis, para o mundo afora.

Agora, posso vê-lo quase com nitidez. E não me é estranho. Na verdade, conheço-o bem. Alguns o denominam bruxa, mas prefiro chamá-lo mariposa.

Tenho, pois, uma companhia alada compartilhando minha noite; uma amiga, dessas caladas e distantes, que não leem verso (nem prosa), ‘mas secretamente influem na vida, no amor’. (Creio mesmo que minha mariposa jamais pousou em uma página do Mahabharata, portanto, desconhece caminhos de aniquilamento em flama brilhante). Se é espírito viajante, alma exalada em derradeiro suspiro, ‘mosca púrpura’, símbolo do fogo ctoniano, ligado a sacrifício, a morte e ressurreição... não importa. Para mim, ela representa a libertação do casulo, a forma última de longa metamorfose terrena (e arbórea). Para mim, é uma visita estimulante, e, de certa forma, esperada.

Leitores, entendei-me! ‘Essa presença [não mais] agitada / (...) / não é simplesmente a [mariposa]’. É antes uma vida querendo romper - e compreender - o casulo da noite.

Encaro suas asas, misteriosas e tão abertas, como convite para um passeio - convidam-me a uma pequena viagem não rumo à perdição, mas ao amanhecer. E embarco em seu (não tão claro) enigma.

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