Meu caminho

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Caminho.

Caminho meu caminho de volta.

Quando comecei, não havia trilhas, não havia estradinha boiadeira. Eu abria picadas com os pés desnudos, percorria veredas de ninguém sabidas, povoando mãos e pés de feridas nunca de todo cicatrizadas. A vitalidade e o arrojo, em prosa e verso exaltados, resultaram, quase sempre, estorvo grande. Nunca me foram bengalas, nem cajados.

Ao longo da jornada porém e por sorte -luzes sempre surgiram acesas em brejos e curvas.

O primeiro farol foi a mãe Sebastiana, ensinando rezas, contando histórias da vida de santos. E farol também foi o pai Vadico, cuja frase repetida a toda saída de casa, ecoa e ressoa ainda hoje, às margens do caminho:

- Vamos com Deus adiante.

Houve um tempo em que quatro lanternas foram acesas, empunhadas por Nair Rocha, Maria Peixoto, Carlos Faciroli e Antônio Peixoto. O foco de todas elas, mirando o mesmo ponto, iluminou intensamente as pinguelas do aprendizado primário, e eu transpus, com segurança e amparo, os primeiros abismos.

Aquelas lanternas nunca se apagaram. Ao contrário, impregnaram meus pés ainda descalços e se fizeram mola propulsora, forçando-me à busca de nortes, à descoberta de novas Américas. Impuseram-me a contínua travessia de riachos e córregos.

E eu caminhava.

Caminhava, caminhava, e os caminhos se alargavam e se iluminavam de diferentes cores, de diferentes origens.

Ainda quando as sombras mais escuras ficavam para trás, e as curvas adquiriam amenidades, e a viagem semelhava passeio, eu me perdia em encruzilhadas e em desvios que me produziam feridas profundas e machucados doídos.

É que o caminhante, ávido de atalhos arborizados e floridos, enveredava por becos e ruelas que conduziam sempre ao sítio do retorno.

Por sorte, mesmo lá, em meio à bruma, apareceu sempre um vaga-lume vagalumeando.

Então, qual boi atrás do candeeiro, eu seguia a brasa que se acendia e se apagava. E retornava à estrada.

Depois dos percalços todos, de aprendizados tantos, chego à margem do Grande Rio. À minha frente há uma ponte larga, unindo as duas margens. Agora devo transpô-la.

E, então, só me restará um pedacinho de caminho a percorrer.

Acelerarei o passo, atingirei depressa as margens do Grande Oceano. Avistarei um anjo que desenha pegadas na areia. Ele tomará minha mão, entraremos em canoa, e ele me conduzirá, através das águas, até o parque infantil de minha infância, cujos brinquedos eram admirados de longe por minhas irmãs e por mim, todos embevecidos.

O anjo me soltará a mão.

Não haverá portas, nem guichês.

Correrei em direção às bexigas coloridas, em direção aos aviõezinhos, em direção aos barquinhos, em direção ao carrossel, em direção à roda-gigante...

E serei devorado pela infinitude de luzes.

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