Vozes

Por: Maria Luiza Salomão

Quando começamos a falar não temos, precisa mente, “o quê’, o “como” e o “para quê” da fala. Vaga ideia vai se articulando em direção ao interlocutor, cria suas variantes e soma impressões, articula uma história.

Começamos a falar: “nossa! De onde veio esse Povo que vai para as ruas?” e palavras se desdobram, organizam pensamentos, conforme o que sentimos, ou pressupomos a respeito do próprio sentir e o do interlocutor. Quem é o interlocutor? Ele trabalha em casa, tem difícil acesso a informações, educação, saúde, etc. (as palavras serão sinceras ou sub-reptícias, conforme o vínculo?); o colega de trabalho (palavras formais?); o chefe ou subordinado (palavras medidas?); o petista roxo, ou arrependido (palavras irônicas? Debochadas? Acusativas?); aquele que nos parece apolítico, ou mesmo alienado (palavras críticas? Esclarecimentos?); o “sem opinião”, “em cima do muro” (palavras de desafio? Vagas palavras?); o que tem opinião forte e não tolera ideias novas (palavras covardes? Firmes? Palavras-espadachins”? contornáveis palavras?); o curioso, o filósofo proseador (palavras de investigação? De síntese? Palavras mobilizatórias?); o festivo em volta da mesa (palavras compenetradas? convocativas?); o pragmático, que exige ação e solução (palavras prudentes, introspectivas?); o anárquico, que quer ver o circo pegar fogo (palavras-bombeiro, palavras “deixa disso”, palavras sem vi-o-lên-cia!) .

Vamos mudando o fio do pensamento, conforme as tonalidades das vozes, e seus conteúdos. Somos apresentados às opiniões dos outros, sim, mas também a algumas opiniões que não supúnhamos ter, previamente, antes de ousar proferi-las.

Estamos, hoje, em meio a uma algaravia, pós-movimentação nas ruas: os políticos se interessam, finalmente, pelos desejos da massa. A massa sabe e não sabe o que deseja; os governantes querem secar o mar de gente nas ruas; os partidos não sabem como sair de cima do muro, já que nos “conformes” podem levar mais pedradas. Quem tem opinião forte quer se aboletar, o festivo se recolhe: a coisa ficou séria. Falamos - alma brasileira - da política como se fala de futebol. Somos, cada um, treinadores especializados, sem nunca ter jogado bola. Cada cabeça uma sentença. Educação, Saúde, Transporte, Segurança, Ética, Cidadania, anseios comuns, mas tão abstratos! Como? Quando? Por onde começar? Quem autoriza quem? Quem conhece as regras do jogo? Cadê o juiz?

A palavra é feiticeira. Quem ousar sintetizar a palavra agora, no Brasil, precisa ser poeta: somos um mar de desejos anciãos e recém-nascidos. Urge um canto novo, uma reza brava de exorcizar demônios, a criar um altar para outro Brasil. Um verso de uma canção se insinua, marca de tempo de crise nacional, e me cala, triste hino, macerado, temeroso e esperançoso: “Coração, Juventude e...

Fé”.

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