Educação: o que falta e o que sobra

Por: Jane Mahalem do Amaral

Há muitos anos na Educação, já passei por diferentes sentimentos: já acreditei em uma mudança profunda e radical, já lutei por isso, já sonhei , já me espantei com os desmandos nessa área, já me desiludi e depois voltei a acreditar para, logo em seguida, voltar a me decepcionar. Hoje, olhando para nossas escolas, tenho a sensação de que elas vivem num contexto irreal, quase como um filme de ficção. Alunos sentados, olhando para a frente, tentando ouvir um professor que fala, fala... Nas mãos, escondido debaixo da carteira, um celular mudo guarda um mundo e provoca os dedos e o desejo de cada aluno. É uma luta inglória, como diriam os mais antigos... O que ensinar e como ensinar a esses jovens e crianças que com apenas um toque podem ser levados à China ou a um campo de futebol?

São muitos os teóricos e várias as novas propostas. Temos já algumas realidades concretas como a Escola da Ponte, em Portugal, onde a presença do professor é apenas um apoio para que o aluno, sozinho, aprenda numa relação de troca com seu colega. Aqui no Brasil, também algumas investidas nesse campo nos chegam como uma modernidade desejada.

Lendo o livro Pedagogia Iniciática, de Roberto Crema, psicólogo e antropólogo deparei-me com alguns caminhos que, sem dúvida, poderiam nos levar a uma mudança. No entanto, percebo que essa mudança só chegaria às escolas se viesse pela via de uma nova ordem social.

O que propõe Crema é que necessário se faz dar um passo além, ou melhor, educar para Ser, buscar uma alfabetização psíquica, livre desse paradigma materialista, racionalista e positivista que nos leva cada vez para mais longe de nossa alma profunda. É preciso, diz ele, ‘possibilitar ao Aprendiz descobrir seu potencial de plenitude por uma via íntima que do ego, possa conduzir ao Self, o Mestre Interior’. Nossas escolas convencionais estão divorciadas da subjetividade, da dinâmica das relações, das emoções e dos sentimentos. Onde podemos cultivar nosso jardim dos sonhos e ter ajuda para compreendê-los? Como aprender a interpretar os múltiplos sentidos de um fato? Como descobrir a dimensão de uma mente silenciosa que pode nos levar além dos nossos diálogos interiores, de nossas projeções e julgamentos? Como saber escutar o outro e não apenas ouvir a fala de um professor cuja função passou a ser a de domesticar e adestrar para exames padronizados? Nossa escola de hoje é obrigada a introjetar informações que, na
sua maioria, se tornam obsoletas em questão de horas ou dias. E lá na mão do aluno continua o celular, vivo, atual, mas também fútil e alienante. Educar para Ser, nos diz Roberto Crema. Educar para uma inteligência mais iluminada e para um coração mais inteligente.

Em uma de suas últimas crônicas, intitulada Tormentosas Dúvidas, meu querido amigo, Luiz Cruz, nos traz a seguinte pergunta: ‘Hoje os meninos do ensino fundamental ligam aparelhos, percorrem galáxias, participam de guerras nas estrelas, explodem astros, pilotam transatlânticos, exploram o fundo do mar dentro de colossais submarinos. Serão felizes? Que mistério sobrou para as mães lhes contarem?’

É essa a questão, caro amigo! Nada sobrou que não estivesse no belo celular, último modelo, mas falta tudo, pois falta vida real para ser vivida, amor de mãe para se dar, falta relação e falta alma porque essa não está em nenhum programa digital.

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