Não há arnica para dor de amor

Por: Débora Menegoti

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O tempo avisava que ele não chegaria a tempo de raspar o tacho onde lentamente, cautelosamente havia feito o doce predileto à moda de sua avó, contando as horas, mesmo sabendo que seu diabetes talvez lhe permitisse somente cheirar a colher de pau. Apanhei os frutos, congelei, raspei, cortei milhares de fitinhas finíssimas e delas fiz milhares de mini caracóis, preparei linha, agulha, tacho, fogo... Mas aí, me esfriando, ia adormecendo o paladar e chegariam os devaneios por conta da demora:

Onde será que ele está??? E se precisar de mim? E se ele morrer encostado por aí sozinho? Como vou me perdoar??? Senhor, tenha piedade de mim! Dê-me algum sinal de que ele está bem vivinho?! Mesmo que em outros braços macios!

Comerei todo doce de mamão sozinha em minha ansiedade. Aqueles mimos enroladinhos, costuradinhos um a um, cozidos em colares quilométricos em calda de açúcar no tacho de cobre no fogão a lenha... Nunca não me negar... Sozinha novamente afinal... Cheirando à fumaça... Enquanto desejava água... Numa sede terrível; cabispensando exausta. Somente o cheiro do doce me confortava enquanto o salgado do meu rosto me fazia imaginar milhares de tubarões em meu revolto mar interno a roer minhas vísceras...

Ele sabia que meus sentimentos eram fortes... Ele sempre seria tudo o que eu sempre quis. Mas o que ele queria afinal?

Meu destino rendado por suas palavras feitas de esperanças e acasos se confundia à fumaça parecendo quase meus laços de cetim imaginados para um futuro pouco provável.

Ora ou outra ainda apareceu visivelmente acompanhado. Era sempre uma mulher vestida de sexta, de sábado à noite a qualquer hora do dia. Eram dias de folga todos os dias nas mãos dadas com aquela mulher sob chuva, sol, dentro do carro, na cama, nas estradas familiares...

Poderia sentir-me menos usada, mais humana... Correria menos água sobre as imóveis pedras e travesseiros se nunca tivesse prometido Amor tão imperecível em teus olhos.

Se não tivéssemos dado as mãos, se ele não houvesse aconchegado aquela menina ao seu peito, lembrando a ela quanto é bom estar ali protegida...

Mas seria eu mais feliz se não houvesse acendido aquelas velas, aberto aquele vinho, soprado aquele incenso? Guardo muito bem aquelas lembranças. Sinto agora ânsia de ser tatu bolinha, ou bolha de sabão, liquefazer-me ao menor som do vento, busco conforto nos olhos da minha criança que sempre deixa tudo tão insignificante, ao confortar-me com a segurança de que todo Amor dela, ao menos, era insignificante, ao confortar-me com a segurança de que todo Amor dela, ao menos, era meu completamente; naquele e em qualquer instante da vida que continua. Mas o olhar absorto fica estático como quem não vê mas olha além de um ponto que tudo se ofusca. Não há nada a fazer agora, faz tanto tempo... Tão pouco há necessidade de um relicário de Apatitas azuis que façam reviver as memórias mais antigas desviando meu olhar para outro Amor. Nem voltarei ao consultório daquele ortopedista que pede que eu somente o escute um dia. Não tenho vontade nem de escutar as canções favoritas... Quanto menos outro homem que não você...

Vou deixá-lo ir, feliz como soprar um dente-de-leão. Que se desfaz lentamente com o vento pois é sua natureza. Assim você se acabará em mim... Sobraria o talo, o caule verde inocente, apenas, sem imaginar o poder divino de nascer, de ter coragem de viver uma fantasia feliz desabrochando...Transmutaria caule em risco e cicatrizará o risco em mim depois de seco, a pele há de comer até torná-lo quase imperceptível.

Não há arnica para a dor do Amor. Nem medicina que conserve um dente- de- leão quando o tempo avisa chuva que vem...

Mas haveria cura para quem se sente “filha de vidraceiro”. Para quem vive só segundas-feiras... Bastam duas palavras de sua boca. Não há.

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