Somente a capa

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Prometeram atender-me às oito horas. A ansiedade acordou-me, porém, muito cedo e, por isso, às sete horas eu já estava plantado na porta da Ribeirão Gráfica Editora, com pacote de pão-de-queijo na mão. Logo a funcionária Jane chegou, tomamos café na companhia dos demais funcionários: Gustavo, Danilo, Márcio e Fernanda.

Em seguida, fui com a Jane para a sala dos computadores, ela exibiu-me dois modelos de capas de livro, impressos com antecedência.

- Qual você prefere?

A ausência de patrões empurrou toda a turma para a saleta. As pessoas olhavam para mim, cobrando escolha imediata.

- To be or not to be. Dúvidas se dissipando devagar.

A ralé despeja incertezas.

Danilo, o impressor, por engordar três bezerros confinados em sítio da mãe, acha-se especialista em vegetação. Bota o dedo na capa, aponta defeito em galho de árvore, na dimensão de sua sombra.

Gustavo, o responsável pelo acabamento de livros, opina que o envelhecimento da foto fez exaurir toda a vida da realidade fotografada.

Fernanda, a atendente, por namorar fotógrafo, descobre imperfeições, fala de primeiro plano, de segundo plano de defeitos técnicos.

Márcia, a esposa do proprietário da editora, aparece e só vê maravilhas nas duas capas. Sua dúvida reside em qual das duas é mais extraordinariamente bela. Recorre à ajuda do marido Fernandão.

- Fô, o que você acha?

Com sua natural afabilidade, o chefão se posiciona definitivamente.

- Acho que o freguês tem razão. Sempre tem razão. Ele já pagou a entrada?

Seu filho Márcio, pouco dado a palavras, faz gesto com ombros e com a cabeça. O pai deduz que ainda terá dificuldades para receber o acordado.

Tomo bruscamente os protótipos das mãos dos palpiteiros. Digo ao Danilo para ir cuidar da impressora, senão acabará vendendo esterco. Digo ao Gustavo para ir cortar papel, antes que o Fernandão o mande de volta à oficina mecânica, onde irá novamente sujar as mãos de graxa. Digo à Fernanda que volte à sua mesa, que continue pintando as unhas.

Todos somem da sala, ficamos ali somente a Jane e eu. Podemos trabalhar.

- Prefiro esta. É condizente com a mensagem do livro. Agora vamos melhorá-la.

A mulher aperta botões do teclado, a capa do futuro livro cresce, ocupa toda a tela do computador.

- Desça o título... Ele está cobrindo parte da concha acústica. Isso, isso. Agora, vamos mudar o tipo das letras.

- Essa letra é bonita, moderna, trabalhada.

Ignoro a observação da amiga Jane, ela mostra-me dezenas de tipos de letras diferentes. Faço minha escolha.

- Agora, quero que o meu nome e o título do livro fiquem em vermelho.

- Cruz credo, Cruz. Vermelho?

Meu silêncio vence assombro e contestação.

- Retire o sombreado... Isso, isso. Assim ficou melhor.

- Só você que acha.

- Vamos para a contracapa. Aí, aí. Quero que você apague o texto, que deixe somente os dois últimos parágrafos.

- Mas Cruz, o texto é lindo. E só esse pedacinho aí, ninguém vai entender nada.

- Vai, vai... Quem já tiver vivido muitas despedidas entenderá... garanto que entenderá.

O tempo correu. Já são onze horas, todo mundo está saindo para o almoço. Pego carona com o Márcio que me deixa no centro. Caminho pela rua, matutando.

- Anos e anos para compor um livro. Dias e dias para dar forma final a um punhado de laudas, construir um boneco, fazer muitas e muitas correções. Horas e horas para elaboração de uma simples capa.

Caminho e medito.

Tanto trabalho, tanto dispêndio de energia e de dinheiro para ser lido por dez, talvez por vinte pessoas...

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